Este blogue é uma extensão de Entre as brumas da memória.

quinta-feira, 1 de maio de 2008

Carta de 106 padres ao Núncio Apostólico sobre substituição de Cardeal Cerejeira

Este documento foi publicado pela primeira vez, sem as assinaturas, em:

Joana Lopes, Entre as Brumas da Memória. Os católicos portugueses e a ditadura, Âmbar, Porto, 2007, 248 p, pp. 229-230.
As assinaturas foram divuladas mais tarde, em 17/4/2007, no blogue Entre as brumas da memória.


«Exº e Revº Senhor,

Consta com um certo grau de publicidade que Sua Eminência o Senhor Cardeal Patriarca apresentou ao Santo Padre o pedido de exoneração do governo da diocese de Lisboa. Não sabemos por quanto tempo o S. Padre manterá a negativa que deu ao pedido do Senhor Cardeal Patriarca. A sua idade faz nos pensar que, segundo o caminho ordinário da Providência, não será por muitos anos que poderemos gozar da alegria de o ter como pastor.

Membros do Povo de Deus, colaboradores do ministério episcopal, integrados no presbitério diocesano, sentimo nos no dever de colaborar com aqueles que finalmente irão decidir sobre quem há de presidir, no futuro, ao povo cristão da diocese de Lisboa. Este nosso passo significa objectivamente – assim o julgamos – maior amor à Igreja que uma aceitação passiva dum qualquer bispo que nos fosse dado. Temos consciência de que é exigência da nossa condição de membros activos do povo de Deus, sempre atento a perscrutar os múltiplos sinais da vontade do Senhor, e especialmente neste caso em que está em causa o sinal ministerial da Sua pessoa; cremos que a colaboração, que define o nosso sacerdócio, deve estender se também à escolha daquele de quem vamos ser colaboradores, em ordem a uma sempre mais leal e generosa cooperação.

Ninguém ignora que a diocese de Lisboa é, hoje, em Portugal, a diocese que exige maior lucidez para equacionar os problemas pastorais, maior coragem nas soluções e maior rapidez de acção. Em Lisboa sente se, como em nenhuma outra parte do país, a urgência de redimensionar toda a pastoral em função dum mundo que tão rápida e profundamente se transformou. Cremos que não é útil à diocese, neste momento, um bispo notável apenas por reconhecida e elevada cultura, suficiente talvez noutro contexto em que os problemas pastorais fossem de menor importância; não é o momento para um bispo que seja apenas o fiel guarda dos bens materiais adquiridos e das soluções pastorais encontradas pelos seus antecessores. Pensamos que a gravidade do momento não permite considerar a Sé de Lisboa como a mais elevada recompensa pelos serviços prestadas à Igreja. Impõe se um bispo que seja essencialmente pastor.

Parece nos que o Senhor D. Manuel Falcão, Bispo de Telepte e actual auxiliar do Patriarcado, pela sua capacidade de acção, juventude e reconhecida competência pastoral, poderia ser o bispo de que necessita a diocese de Lisboa. O Senhor D. Manuel Falcão foi, durante uma dezena de anos, professor no Seminário Maior dos Olivais, o que muito contribuiu para a sua formação sócio pastoral e para a geral simpatia e conhecimento pessoal e directo do clero; os seus estudos de sociologia religiosa dotaram no com um precioso instrumento de observação da realidade pastoral e fizeram no um dos melhores conhecedores do estado actual da diocese; a direcção do Boletim de Informação Pastoral fê lo debruçar se sobre os principais problemas da pastoral moderna; tem estado na origem de todas as iniciativas pastorais de vulto da diocese nestes últimos anos, por reconhecida competência e com o aplauso unânime do clero.
Mais nos convence da oportunidade da sua escolha a isenção política que tem mostrado, num momento em que muitos cristãos e alguns dos sectores mais vivos da sociedade portuguesa se interrogam angustiadamente sobre o compromisso da Igreja com o actual regime político.

Queira Vossa Excelência Reverendíssima, Senhor Núncio, receber a expressão sincera do nosso filial amor à Igreja e da nossa veneração ao Santo Padre.»


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Subscrevo a carta enviada ao Senhor Núncio Apostólico em Lisboa com data de 25 de Dezembro de 1967, sobre o futuro bispo.
(106 assinaturas)

104 padres (um dos quais Cónego) e dois Diáconos

P. Abílio Franco
Cónego Abílio Tavares Cardoso
P. Abílio Vieira
P. Agostinho Gomes
P. Alberto Augusto Teixeira Dias
P. Alberto Neto Simões Dias
P. Albino Mamede Cleto
P. Alfredo Manuel Cerca
P. Amilcar Luís Fialho
P. António Antunes Ribeiro
P. António Augusto Sobral
P. António Cândido
P. António Crisóstomo
P. António de Jesus Soares Ferreira Onofre
P. António de Sousa Bento
P. António Dias Matos
P. António do Carmo Vicente
P. António Gonçalves Pedro
P. António Henrique Tomás de Oliveira
P. António José dos Santos
P. António José Paiva Afonso
P. António Manuel de Almeida Janela
P. António Marques Garcia
P. António Melo Cardoso
P. António Mendes Rocha
P. António Mendes Silva
P. António Rodrigues Correia
P. António Sobreiro
P. Armando da Silva Vieira
P. Armindo Marques Garcia
P. Artur José Nobre
P. Artur Lemos de Azevedo
P. Aurélio Marques Matos
P. Avelino Manuel Barata Pinto
P. Carlos Alberto Pessoa Paes
P. Carlos Capucho
P. Carlos Fernando Póvoa Alves
Diácono Carlos José Margaça Veiga
P. Carlos Leonel Pereira dos Santos
P. David de Pinho Esteves
P. Diamantino Henriques Marques
P. Domingos José Luís Morais
P. Elias Ferreira da Costa
P. Ernesto Arantes Rodrigues da Silva
P. Fernando António Tomás de Oliveira
P. Fernando Augusto Mendes Gonçalves
P. Fernando Campos da Silva
Diácono Fernando Matos Oliveira
P. Fernando da Piedade Melro
P. Fernando Ferreira Belo
P. Francisco de Jesus Graça
P. Francisco Escudeiro
P. Francisco Júlio Amorim Fanhais
P. Helder Veríssimo Franco
P. Henrique de Noronha Galvão
P. Henrique Pietra Torres
P. Herculano de Brito Martins
P. Hermenegildo Major Duarte
P. Ismael Nabais Gonçalves
P. Jacinto Gonçalves Pedro
P. Jaime da Silva
P. João António de Sousa
P. João Baptista Bragança Fernandes
P. João Fernandes Salvador Morais
P. João José Seabra Diniz
P. João Maria Baltasar Farinha
P. João Sousa Canilho
P. Joaquim da Conceição Duarte
P. Joaquim Ferreira Roque Abrantes
P. Joaquim Luís Batalha
P. Joaquim Rebelo dos Santos
P. José Augusto Pereira
P. José Carlos da Silva Sousa
P. José do Carmo Vicente
P. José dos Santos Bernardo Gonçalves
P. José Fialho Feliciano
P. José Gonçalves Mendes
P. José Maria Henriques
P. José Mendes Serrazina
P. José Miranda Magalhães
P. José Rodrigues Frade
P. José Rodrigues Paula
P. Júlio Pereira Ambrósio
P. Luís de Azevedo Mafra
P. Luís Filipe C. Gualdino
P. Luís Manuel Vítor dos Santos Moita
P. Manuel Álvaro da Silva Quintas
P. Manuel Alves
P. Manuel Aníbal Mota Sousa
P. Manuel Bernardo Nobre Soares
P. Manuel das Neves Afonso
P. Manuel Francisco Borges
P. Manuel Frango de Sousa
P. Manuel Luís
P. Manuel Martins
P. Manuel Tiago Monteiro Martins
P. Manuel Vieira
P. Manuel Vieira Felicidade
P. Manuel Vitorino da Silva Moreira Fernandes
P. Maximino Salvador
P. Orlando Leitão
P. Paulo da Trindade Ferreira
P. Ricardo Gameiro Lopes
P. Rodrigo Gouveia de Palma
P. Victor Manuel Casqueira Gualdino
P. Zacarias dos Santos Nascimento

segunda-feira, 14 de abril de 2008

«O Bloco e o poder»

Pedro Magalhães
Público, 14.04.2008

Com as mais recentes sondagens a mostrarem unanimemente um novo declínio do PSD, um CDS-PP agonizante, um PS aquém da maioria absoluta e o PCP e o Bloco de Esquerda a somarem perto de 20 por cento das intenções de voto, a especulação sobre o que poderá suceder após as próximas eleições aumenta. Do lado da esquerda, Rui Tavares questionava-se há dias, no PÚBLICO, sobre a "insuficiência" de um papel para o Bloco de Esquerda que não vá para além de um mero "partido de resistência". Do lado da direita, o frenesi recente sobre as propostas da lei do divórcio (e no rescaldo do controverso referendo sobre a despenalização do aborto) também não engana e permite discernir o pano de fundo destas discussões: um conjunto de dúvidas, esperanças ou receios sobre um futuro governo socialista cuja estabilidade e políticas possam, de alguma forma, vir a depender do (ou ser influenciadas pelo) Bloco de Esquerda.

O BE tem sido muitas vezes tratado, até nas raras abordagens que dele foram feitas na ciência política, como um partido da "esquerda libertária". Na linguagem cifrada dos politólogos, o termo remete, em primeiro lugar, para partidos que, desde os anos 60, começaram a articular ideias e valores ligados àquilo a que se chamou "pós-materialismo": a ecologia; os direitos das mulheres e de minorias sociais e culturais; e o primado da autonomia e da liberdade individuais, de onde flui uma tolerância em relação a comportamentos e identidades sociais que se desviam da "norma" social. Remete também para partidos, que, situando-se à esquerda, carecem do grau de centralização, hierarquização e disciplina dos partidos comunistas ou sociais-democratas tradicionais, devido quer à sua ligação a movimentos sociais, quer a uma desconfiança ideológica intrínseca (que é parte, de resto, daquilo que os torna atraentes) em relação à forma como é conduzida a actividade partidária convencional. E finalmente, remete para partidos cujas bases e eleitores, ao contrário do que sucede nos partidos de esquerda tradicionais, são em grande medida compostos por classes médias urbanas, jovens e instruídas.

Sabe-se já alguma coisa sobre o que sucede a este tipo de partidos quando se aproximam da esfera da governação. Uma das hipóteses era a de que essa aproximação seria fatal, inevitavelmente frustrando as expectativas dos seus eleitores e apoiantes. Mas a hipótese não se parece verificar. É certo que essa aproximação os obriga a resolver uma série de dilemas. Como conciliar o radicalismo do seu discurso com o pragmatismo necessário para participar de alguma forma na governação? Como conciliar uma matriz organizacional flexível com a necessidade de conceder autonomia estratégica a líderes que possam negociar credivelmente acordos com outros partidos? Como conciliar as denúncias da falta de transparência e corrupção da vida política com a aproximação ao poder? Mas nos vários países em que essa aproximação ocorreu (Finlândia, Itália, França, Alemanha, Bélgica e Suécia, por exemplo), os partidos da esquerda libertária foram encontrando soluções para estes dilemas. Os casos mais bem sucedidos - do ponto de vista da sobrevivência e posterior sucesso eleitoral desses partidos - têm várias coisas em comum: experiências prévias de acordos a nível local e regional antes de se abalançarem ao palco nacional; uma aproximação ao governo central apenas posterior à aquisição de experiência parlamentar suficiente para fornecerem quadros com formação política adequada; a reforma das estruturas partidárias no sentido da sua hierarquização e centralização, sem abandonarem algum grau de distintividade no que respeita à democracia interna; a procura de soluções alternativas à participação plena no governo, em acordos parlamentares que permitem influência política sem se suportarem os custos da responsabilização pelos fracassos; e, finalmente, o exercício dessa influência de forma a "ajudarem" os partidos de centro-esquerda a adoptarem políticas sem grandes implicações distributivas, mas com grande ressonância junto do eleitorado "pós-materialista", ou seja, políticas ligadas a uma agenda de defesa dos direitos de minorias e de liberalização dos costumes. Como o caso belga em 2003 demonstra, isto nem sempre chega para evitar o preço a pagar em termos de tensões intrapartidárias, corte de relações com movimentos sociais e punições eleitorais. Mas há casos de sucesso e, de resto, a perspectiva de um futuro de eterno combate na oposição arrisca-se a ser ainda mais desmobilizadora do que os riscos que advêm da aproximação ao poder.

O que vale, de tudo isto, para o BE? Alguma coisa, mas não tudo. É certo que as mudanças nos estatutos do Bloco, especialmente as de 2007, apontam para um partido cada vez mais centralizado e hierarquizado. É também verdade que a experiência de Lisboa se enquadra quase perfeitamente na estratégia seguida por outros novos pequenos partidos em toda a Europa, sinalizando, apesar de aparentes divergências internas a este respeito, a disponibilidade do BE para se aproximar do poder. Contudo, convém não sobrestimar as semelhanças entre o Bloco e a "esquerda libertária", ou entre Portugal e o resto da Europa. É certo que o partido nasce muito ligado a esta agenda, em alternativa ao conservadorismo cultural do resto da esquerda. Mas o mais irónico é que, apesar da "agenda libertária" do partido gerar grandes perturbações entre vários sectores da opinião publicada, o Bloco parece ter cada vez menos a ver com esses assuntos. Impelido pela competição com o PCP, pelas reduzidas bases do "pós-materialismo" português, pelo centrismo do PS e pela aparente capacidade de atrair a ala esquerda do eleitorado socialista, o BE vem-se progressivamente afirmando cada vez menos como um partido da esquerda libertária - ainda de viabilidade duvidosa em Portugal - e cada vez mais com um partido da esquerda socialista tradicional, opositor aos desvios "neoliberais" do Governo do PS. Uma espécie de "Die Linke" à portuguesa. Eleitoralmente, a estratégia parece correctíssima. A ironia é que, se o perfil anterior até o tornava "comestível" para um governo PS com este primeiro-ministro, o novo perfil torna-o cada vez mais intragável. Em 2009, a busca de uma solução de governação estável pode vir a ser mais necessária do que nunca, mas também mais difícil do que alguma vez foi.
Politólogo

terça-feira, 1 de abril de 2008

Acção Eclesial e Acção Política

In Cadernos Socialistas, nº3, Fevereiro de 1969, pp. 91-98

Assinado por Manuela Gomes (pseudónimo de Joana Lopes)

Escrito em Agosto de 1968


1 - Não é nossa intenção fazer uma análise do estado actual da Igreja em Portugal, mas unicamente tentar reflectir sobre o que nos parece ter sido, nos últimos tempos, o tipo de acção dos chamados «católicos progressistas» e, entre estes, especialmente os do sector adulto, burguês e intelectual.

O objectivo será mostrar que, no nosso entender, o tipo de acção dos católicos que consideram que uma revolução deve «acontecer» em Portugal, e que pretendem tomar parte activa nela, tem de ser profundamente repensado neste momento. Isto sob pena de alguns ou muitos desses católicos se lançarem em becos sem saída, nos quais se instalarão desesperançados ou continuarão a se alienarem sem saberem muito bem em quê.

Mais concretamente: parece-nos que, pelo menos no condicionalismo actual português, é errado e perigoso considerar que um certo tipo de acção eclesial, de que adiante falaremos, está a contribuir para a criação de uma situação efectivamente revolucionária. Está talvez apenas a habituar os católicos nela comprometidos a um estilo de vida activa e generosamente reformista, que os ocupa e os desgasta física e psicologicamente e que se, por um lado, deixa alguns confusamente insatisfeitos, por outro, corre o risco de sossegar a consciência de muitos.

A rápida descrição de factos que se segue pretende unicamente ilustrar o que acabamos de dizer.

2 – Pode dizer-se que a estas pessoas corresponde um certo «espaço», de superfície e contornos mal definidos e variáveis segundo as circunstâncias, mas em que há no entanto em comum um certo número de características e um determinado património. São pessoas que se conhecem porque constituem o público fiel de algumas missas, de algumas conferências, dos sócios da Pragma e da ordem alfabética dos abaixo-assinados.

Não cessaram de aumentar em número nos últimos anos. Terá sido fundamentalmente uma certa atmosfera criada nas últimas etapas do Concílio e depois do seu encerramento o elemento determinante de um certo mal-estar crescente em intensidade e em extensão. Alguns textos conciliares e algumas encíclicas (Pacem in Terris e Populorum Progressio) abalaram realmente a indiferença de muitos, fazendo-os tomar consciência da contradição flagrante entre a letra desses documentos e a realidade da sociedade e da Igreja em Portugal.

Aqueles, relativamente poucos, que desde há muito tentavam lutar contra a imobilidade e a injustiça viram no aggiornamento conciliar e nos referidos textos (que passaram a citar constantemente) uma tábua de salvação, simultaneamente um reconforto e um estímulo pessoais e uma verdadeira arma (pacífica...) de conquista de outros para o descontentamento generalizado – descontentamento que passa a manifestar-se quase sempre visando conjuntamente a acção governo e dos bispos, sendo estes atacados pela sua ligação ao Estado e pelo seu silêncio.

Funda-se a Cooperativa Pragma, não confessional mas inspirada nos princípios da Pacem in Terris, que se torna um ponto de encontro neste «espaço» e que o abre para uma certa elite de operários e de não-católicos.

Multiplicam-se as reuniões, os colóquios e as mesas redondas, por vezes tumultuosos, sobre a Pacem in Terris, sobre o Concílio, sobre o diálogo com protestantes e ateus, organizados nomeadamente pela Pragma ou pelo grupo ligado à Revista Concilium da Livraria Morais.

Aparece a publicação clandestina Direito à Informação, animada pelo mesmo espírito, expressamente, embora mais especificamente política.

Alguns padres, fortes do apoio da doutrina conciliar, ousam avançar no domínio da crítica social.

Roma, o Papa (João XXIII e Paulo VI dos primeiros tempos) e um ou outro D.Helder da Câmara tornam-se símbolos de libertação.

Reina uma certa euforia de movimento irreversível que atemoriza uns mas que leva muitos a pensarem que a Igreja em Portugal será em breve transformada, ou até governada, por aqueles que desde a primeira hora se tornaram os defensores incondicionais do espírito conciliar. E que isso poderá provocar uma contestação geral do regime de Salazar, intrinsecamente ligado ao catolicismo tradicional.

Renasce em alguns sectores o sonho cíclico da democracia cristã...

Em 1965, por altura das eleições dos deputados, o Manifesto dos 101, a vitória que constituiu a sua publicação na imprensa diária e a ausência de condenação por parte do episcopado contribuíram para o crescimento de todas estas convicções.

O próprio episcopado, na pessoa do Cardeal de Lisboa, parece caminhar no mesmo sentido, provavelmente à contre coeur: escolhe para reitor do Seminário – um dos lugares-chave do Patriarcado – não um cónego idoso de carreira mas um padre novo, amigo de progressistas e que, desde a primeira hora, não esconde a ninguém (nem aos seminaristas...) a sua decisão firme de transformar, e sobretudo de deixar transformar, métodos e mentalidades; confia pela primeira vez a Junta Central da Acção Católica a um Secretário Geral leigo, Sidónio Pais, elemento moderador do centro esquerda, de grande prestígio nos meios católicos e que forma uma equipa de trabalho na qual inclui alguns elementos menos moderados que ele.

Digamos que ao período que separou Outubro de 1965 da primavera de 1967 correspondeu um certo sentimento de vitória...

3 – O encerramento da Pragma pela P.I.D.E. em Abril de 67 e a viagem de Paulo VI a Fátima no mês seguinte abriram uma nova fase que é ainda a actual.

A repressão atinge a acção de católicos – encerramento da Pragma e prisão dos seus dirigentes – e será intensificada mais tarde: ataques na imprensa e na rádio aos católicos traidores de Deus, da Pátria... e da Família, censura aplicada a actividades de carácter estritamente religioso (ex: notícia de um colóquio sobre a fé organizado pela revista Concilium), críticas à Junta Central da A.C., obstáculos à difusão das notícias relativas ao Congresso Mundial do Apostolado dos Leigos, inquietação crescente na P.I.D.E. quanto ao Direito à Informação, proibição de uma sessão sobre Luther King numa igreja de Lisboa e acção violenta de agentes da P.I.D.E. em civil no próprio local, apreensão de um número de O Tempo e o Modo sobre o casamento e proibição de um colóquio sobre o mesmo tema, etc., etc.

Por outro lado, multiplicam-se as pressões junto da hierarquia para que esta tome posição perante a situação política e social: marcha dos sócios da Pragma ao paço patriarcal, número crescente de abaixo-assinados por ocasião do encerramento da Pragma, do desalojamento de milhares de famílias transportadas para o bairro de barracas da Musgueira, dos acontecimentos ligados ao Pe.Felicidade, prior de Belém, etc.

No fim de uma espectacular e triste celebração litúrgica no Pavilhão dos Desportos de Lisboa, que encerrava «o ano da fé», no passado dia 29 de Junho, dezenas de católicos sobretudo jovens, distribuíram uma folha policopiada em que era recordado que a fé exige dos cristãos acção para resolver eficazmente os problemas dos homens. Seguia-se uma lista de casos concretos de violação de direitos políticos e sociais.

Entretanto, vai diminuindo a esperança posta no apoio de Roma e na evolução da Igreja universal – de uma maneira abrupta para alguns com a viagem do Papa a Fátima, lentamente para muitos, com a nomeação de um novo Núncio Apostólico ultra-conservador, com todos os receios que foram invadindo Roma, com os actos de Paulo VI.

4 – Em todo este contexto, foram-se fazendo diferentes tipos de evoluções pessoais que têm, pouco a pouco, dividido os «cristãos conciliares». Essa divisão parece-nos não só inevitável mas salutar, mas ela é objecto de inúmeras discussões e é dificilmente aceite pelos que querem agarrar-se a uma unidade que já não existe.

Alguns (cada vez menos) continuam sinceramente a querer antes de mais «reformar» a Igreja, tendo dela uma visão renovada, a quere levar por diante, mesmo que muito dificilmente, a tarefa de aggiornamento que o Concílio prometeu e fez desejar, mantendo uma colaboração mais ou menos estreita com a hierarquia e o conjunto dos católicos. Crêem contribuir assim para a efectivação de uma sociedade portuguesa mais humana.

Mas sem dúvida alguma que a maior parte dos católicos de que temos vindo a falar, desde há um certo tempo que pretende simultaneamente, ou mesmo acima de tudo, o fim do salazarismo e subordina a esse objectivo o esforço principal da sua acção, mesmo quando tem consciência de que esta só pode corresponder longínqua e indirectamente a esse objectivo.

Uns deixaram já há um certo tempo de assinar cartas aos bispos e afirmam que deixaram de se considerar como fazendo parte da Igreja institucional.

Mas muitos mais são os que até agora mantêm ligações, mais ou menos estreitas segundo os casos, com as estruturas eclesiásticas, que assinam todas as cartas de protesto, que vibram intensamente com o caso do Pe.Felicidade, que ocupam longas horas em conversas e discussões mais ou menos religiosas sobre Deus, moral, violência ou não violência, que organizam colóquios, que passam noites a policopiar papéis e dias a distribuí-los. Tudo isto pode parecer pouco, mas ocupa muito tempo de muitas vidas.

E, no entanto, para alguns a realidade começa a mudar:
• Eles sentem que o reformismo da Igreja, por que têm vindo a lutar, esbarra sistematicamente com inércia e conservantismo acompanhados de um exercício abusivo de poder – e se revela portanto globalmente ineficaz.
• Fizeram uma evolução interior do ponto de vista religioso que os vai desinteressando de um certo número de querelas e para a qual o Concílio pertence já a um passado que se encerra.
• Começam a ver que o papel policopiado (cartas, manifestos, Direito à Informação têm a sua função, mas é por si só incapaz de abalar as forças opressoras ou mesmo de modificar em profundidade a opinião pública.
• Os padres que compartilham este estado de espírito interrogam-se cada vez mais sobre o mal-entendido em que se sentem envolvidos vitalmente e sobre os resultados destes anos de esforço e de incompreensão. Como em todos os países, alguns dos mais válidos pediram a redução ao estado de leigo, outros estudam no estrangeiro.
• Alguns leigos, que no período post-conciliar tinham começado ou recomeçado a trabalhar em instituições eclesiais, estão a deixá-las, cansados e desiludidos, ou considerando, simplesmente, que elas correspondem a interesses de outros, mas não aos seus.

5 – Tudo isto criou já um mal-estar que pode ser muito útil se for, para alguns, a prancha de salto para o mergulho na acção revolucionaria. Como acontece com todo o principiante, haverá o medo, perfeitamente justificado, de saltar. E isso significa concretamente que haverá muitos problema reais – e imaginários – que se vão pôr. Esperemos que cheguem a pôr-se... Porque o maior perigo seria que todas ou quase todas estas pessoas se resignassem ao conformismo, à acção marginal (cultural ou outra), ao jogo da legalidade reconhecendo com ele um governo ilegítimo, por falta de imaginação. «Mas o que é que se pode fazer?» – Muitas coisas. É preciso «inventá-las».

Um problema grave e muito real será, parece-nos, o da violência, não em conversas de salão mas perante um projecto de acção concreta. Queremos dizer que talvez sejam muitos os católicos que estão firmemente convencidos de que a acção violenta é indispensável em Portugal, que o afirmam e defendem e que serão no entanto vitalmente, quase que fisicamente, incapazes, pelo menos imediatamente, de matarem alguém (excepto talvez os que «serviram a Pátria» em África...). E isto porque isso vai contra 20, 30 ou 40 anos de orientação profunda num sentido radicalmente oposto, contra tempos ainda muito recentes de pacifismo feroz. Talvez também porque os valores em jogo não sejam suficientemente imperativos para eles. Talvez também porque não têm ódio. Todos estes elementos positivos ou negativos tornam a realidade complexa. Claro que há a possibilidade da não violência, embora seja mais difícil «imaginar» acções não violentas viáveis e suficientemente eficazes revolucionariamente em Portugal. Os checoslovacos podem ajudar...

Outro aspecto quer nos aprece importante: estes católico- burgueso-intelectuais (sem que nenhuma intenção pejorativa deva ser atribuída a esta caracterização) devem lutar antes de mais pela sua própria libertação de um regime que os oprime também a eles – embora não principalmente. E parece-nos essencial consciencializar precisamente esses pontos de opressão (o estrangulamento da informação é certamente um deles). Pretendemos com isto dizer que a acção revolucionária não pode ser feita exclusiva nem fundamentalmente «por causa dos outros», sob pena de cair num misto de diletantismo, paternalismo e B.A. de boy scout.

Ainda um outro plano. Parece-nos que há uma lacuna gravíssima no plano ideológico. Não partidário, mas de estudo. Seremos demasiado injustos perguntando-nos qual será a percentagem destes católicos que se entusiasmam com Che Guevara, que compraram em Paris o livrinho vermelho e abundante papelada sobre a revolução de Maio, que já têm em casa dois livros do Marcuse, mas que nunca leram O Capital, que nunca viram uma linha de Lénine ou de Engels e não sabem quem é Althusser? Não podemos esquecer as limitações que um ambiente totalmente falseado e asfixiado ideologicamente impõe aos intelectuais que vivem em Portugal. Mas cremos que é urgente que eles se libertem da incompetência política em que tentam mantê-los, procurando não só mas também através do estudo e da elaboração teórica, o mais enraizados que for possível, ir traçando pistas próprias para Portugal. Os exemplos da China, de Cuba, da Checoslováquia, de Paris podem ajudar-nos, em graus e maneiras diferentes aliás. Mas a revolução portuguesa não será cubana nem chinesa... Que revolução será a nossa? (O artigo de Manuel Lucena: Notas para uma acção revolucionária, publicado no nº1 dos Cadernos Socialistas, é um exemplo excelente de uma análise extremamente útil.)

Paramos aqui sem ter pretendido mais que escrever algumas cosas que pensamos neste momento e que são com certeza muito discutíveis. Falamos de um certo grupo de católicos, mas é evidente que muito do que foi dito se aplica a outros sectores.

Quanto a muitos cristãos, cremos que é provável que o salto para esta nova fase seja a condição de não perderem a referência ao evangelho, em parte porque ele os libertará do peso psicológico que lhes vinha até aqui de uma acção ligada a estruturas eclesiásticas opressoras e deformadoras do verdadeiro cristianismo. (Os artigos Os cristãos e as Comunas de Maio e Os Cristãos e a Revolução – por um marxista cristão, publicados neste número, inscrevem-se precisamente nesta linha.)

Eis as únicas «saídas» que neste momento nos aparecem para as pessoas de que falamos.

A revolução far-se-á.

Mas pode acontecer que se faça contra elas. Ou simplesmente sem elas. E isso seria triste.

domingo, 16 de março de 2008

Nomes, cartas, confissões, rotas de vida. Foram parar à PIDE e ficaram lá

Nomes, cartas, confissões, rotas de vida. Foram parar à PIDE e ficaram lá
16.03.2008, Clara Viana, «Público», Caderno P2

Eles seguiam os alvos, interceptavam as cartas, tinham uma predilecção particular pela vida sexual dos que vigiavam. Eles eram a PIDE. O seu arquivo é uma arma. "Um murro no estômago." Os "alvos" falaram ao P2. Os historiadores também. Clara Viana (textos) Daniel Rocha (fotos)

Uma imersão no arquivo da PIDE tende a ser uma experiência que tritura o estômago e a alma. Os que foram espreitar à Torre do Tombo aquilo que a polícia política do Estado Novo "sabia" sobre eles acusam o choque pela "devassa da vida privada", uma das marcas de água das polícias políticas. E há os que nunca lá quiseram ir.

Seis anos depois da primeira consulta na Torre do Tombo, em Lisboa, onde o arquivo está guardado desde 1990 (passou a estar aberto ao público a partir de 1994), Helena Cabeçadas ainda sente o impacto: "Foi devastador."

Na Torre do Tombo, sede dos arquivos nacionais, Helena Cabeçadas (antropóloga, 60 anos, presa aos 16 pela PIDE, impedida de concluir o ensino secundário, trocou Lisboa por Bruxelas) abre uma pasta e fica atónita ao descobrir que começou a ser seguida pela polícia política aos 12 anos. "Já tinha tido problemas no Liceu Filipa de Lencastre por insubordinação, mas actividades políticas ainda nenhumas." Começou a ser seguida talvez por uma questão de nome - o apelido Cabeçadas remetia para o seu tio-avô almirante, um maçon republicano que desafiou Salazar, e para um primo, exilado em Argel.

Na pasta há uma fotografia com Helena de soquetes, a rir. Uma outra, que acompanhava um pedido de Bilhete de Identidade. Era frequente a polícia ficar com cópias destas requisições. Há outra coisa que a levou a ficar tão cedo sob suspeita: trocava imensa correspondência com estrangeiros, que conhecia nas férias, no campismo. Voltou a reencontrar esta correspondência no arquivo. Eles escreviam em francês e a PIDE traduzia o que interceptava, até os poemas de Aragon que ela citava em algumas missivas. Helena registou duas coisas: primeiro, as traduções eram boas; segundo, aquilo, só por si, era indicativo da "multidão" que prestava serviço à polícia.

20 mil informadores
A omnipresença da PIDE levanta obrigatoriamente a questão de quem informou. Nos meses a seguir ao 25 de Abril de 1974, a Comissão de Extinção da PIDE/DGS divulgou que esta dispunha de 2162 funcionários e 20 mil informadores. O número exacto continua, contudo, a ser uma incógnita, devido também, embora não só, ao facto de parte dos registos sobre informadores e agentes ter sido queimado pela polícia no próprio dia 25 de Abril.

Embora sem quantificações, o retrato do país que emerge das dezenas de milhar de páginas à guarda do arquivo é confrangedor: "Impressionou-me a quantidade de material proveniente de informadores - uma rede que chegou também aos vários países em que havia exilados portugueses", refere o ministro da Justiça, Alberto Costa, 61 anos. O governante conheceu o seu ficheiro e os de muitos outros quando, depois do 25 de Abril, regressado do exílio em França, para onde partiu em 1973, após passagem pela prisão, foi colocado na Comissão de Extinção da PIDE.

Também Marcelo Rebelo de Sousa, 60 anos, que no princípio de 2008 foi tentar apurar o que estava no Tombo sobre si, confirmou que a PIDE "era uma coisa muito tentacular". "Em cada escola existiam informadores entre os estudantes e os funcionários. Nas sessões públicas era tudo gravado. A intercepção das cartas era um facto. Havia um acompanhamento muito de pormenor por parte de uma máquina particularmente elaborada. Não sei é se havia gente que estudasse aquilo tudo depois."

Filho de Sua Excelência
O professor de Direito e conhecido comentador televisivo descobriu que foi vigiado de perto a partir da altura em que entrou para a Faculdade de Direito: "Penso que nasci para a PIDE aos 16 anos." O pai de Marcelo, Baltazar Rebelo de Sousa, foi governador-geral de Moçambique, ministro da Saúde e depois do Ultramar. Era um dignitário do regime, o que nunca era esquecido nas anotações que a PIDE fazia sobre o filho, que alinhava pela oposição liberal.

Uma aproximação à descrição que era feita dele nas notas da polícia: "Fulano de tal [eu], que tem ideias perigosas, por sinal filho de Sua Excelência o Sr. Governador ou Ministro, consoante as alturas, estava a distribuir propaganda subversiva no dia x às tantas horas" ou a "colar cartazes" - o que se fazia de madrugada, mas nem por isso deixavam de aparecer as horas certas mencionadas.

Numa outra pasta, estão reunidos os artigos que escreveu para a imprensa entre 1966 e 1970, sobretudo na Capital, um diário já extinto. Estes artigos não eram só escritos por ele, existiam outros autores, mas todos eram assinados com o nome "Coesus". Um registo do professor: apesar desse nome colectivo, a PIDE identificou a sua pertença - "É curioso."

Também foi seguida em pormenor sua actividade na SEDES - o movimento que ainda recentemente denunciou o mal-estar que está a tomar conta da sociedade portuguesa. Devido a esta vigilância, Marcelo Rebelo de Sousa deparou-se com um prognóstico que fizera numa sessão em Leiria, em Janeiro de 1973, já não muito longe do 25 de Abril, que entretanto esquecera. A sessão fora gravada e "reproduzidas ipsis verbis as intervenções efectuadas, por exemplo por Sá Carneiro". Ele, Marcelo, respondeu a uma pergunta sobre os militares: disse que "estavam agitados, em ruptura com o regime, que achava inevitável um golpe de força e que isso ia acontecer a muito curto prazo".

Marcelo Rebelo de Sousa tinha "alguma noção" da vigilância a que estava sujeito. Quanto mais não fosse porque, por vezes, o pai, com acesso a informação privilegiada, lá lhe dizia: "Já sei que estiveste outra vez em casa de..." Geralmente essa casa era a de António Reis (PS), que colaborava na revista da oposição Seara Nova e "era casado com uma comunista": "Depois do 25 de Abril, descobriu-se que o porteiro da casa dele era da PIDE."

O sociólogo António Barreto, 66 anos, ex-PC, exilado na Suíça entre 1963 e 1974, por se ter recusado a participar na guerra colonial, consultou os seus processos feitos pela PIDE no princípio dos anos 90. "Em poucas semanas, tudo me foi mostrado. Era o princípio da abertura, as coisas ainda não estavam suficientemente bem organizadas. Nos documentos que me diziam respeito, havia "informações e "denúncias" assinadas por pessoas ainda vivas, o que é proibido por lei. Fiquei a saber que um "amigo" de Coimbra e outro de Genebra eram informadores da polícia e tinham-me denunciado."

Informadores protegidos
Actualmente, o tempo de libertação de processos para consulta pode ir até aos nove meses. Depende se aqueles já se encontram identificados, se é preciso seguir-lhes o rasto, e também do grau de expurgo a que deverão ser submetidos. Chama-se expurgo ao acto de "limpar" as folhas preenchidas pela PIDE de "dados pessoais de carácter judicial, policial ou clínico", entre outros considerados de foro íntimo. É uma condição imposta por lei.

A amplitude da limpeza depende do estatuto do requerente: todas as pessoas podem ter acesso a todos os processos, mas os próprios terão sempre acesso a mais informações do que terceiros, mesmo quando estes são investigadores.

Sem paciência para preencher requisições e submeter-se a um intervalo de espera, Rebelo de Sousa, por exemplo, viu apenas o que outros já tinham visto de si. Uma das suas curiosidades maiores não foi satisfeita: nada sobre o seu tempo no Expresso, de que foi um dos fundadores em 1973, constava daquelas pastas já prontas a servir.

Na Torre do Tombo, o respeito do direito à privacidade imposto por lei é dificultado pelo que foi o modus operandi da PIDE: quase todos os processos estão repletos de informações cruzadas, a cada nome referido acrescentavam-se dados, introduziam-se referências pessoais de amigos, vizinhos. Muito deste material era depois utilizado nos interrogatórios, como arma de pressão.
A filtragem deste tipo de documentação é também dificultada por uma grande escassez de meios. O arquivo da PIDE que chegou à Torre do Tombo é composto por mais de seis milhões de fichas, 500 livros e 20 mil caixas cheias de processos. Mas no gabinete de expurgo trabalham três pessoas.

Este contraste entre o gigantismo dos resultados do trabalho policial e os meios liliputianos ao dispor dos seus actuais guardiões é inquietante. "No arquivo da PIDE está a intimidade das pessoas", adverte a historiadora Irene Pimentel, 57 anos, militante da extrema-esquerda antes do 25 de Abril, também "fichada" pela polícia, vencedora do Prémio Pessoa 2007 pela investigação que tem desenvolvido sobre o Estado Novo, de que resultou, entre outras obras, uma tese de doutoramento e um livro sobre a PIDE.
Devido em grande parte às precauções adoptadas pela própria polícia, os nomes dos informadores estão geralmente protegidos: na sua grande maioria encontram-se em código.

Já as vítimas encontram-se mais expostas. Seja devido a nomes ou situações que escapam ao expurgo, seja pela migração e papéis entre vários processos, um método comum da PIDE, seja por outras razões. Acontece, por vezes, que se saiba sobre alguém aquilo que não é legítimo saber: o nome de um amante, um tipo de relação, a data de um aborto, as confissões durante um interrogatório.

Irene Pimentel descobriu, por exemplo, que uma pessoa que conhece muito bem "falou" na prisão. Num dos muitos processos que consultou, deparou com a confissão que o próprio, obrigado pela polícia, escrevera, com a assinatura por baixo. "Senti que estava a ver o que não devia", confessa a investigadora. Ao longo de seis anos de pesquisas na Torre do Tombo, não foi a única vez que teve essa sensação.

Terminado o mergulho, subsistem as dúvidas que nasceram nesse percurso: qual o grau de restrição que deveria ser aplicado no acesso aos documentos? O que deve ser ainda preservado e o que deve ser dado a conhecer? Porque é o arquivista o censor? Que poder lhes está a ser dado?

Roubos e discriminação
José Mattoso, 74 anos, um dos mais reputados historiadores portugueses, director do Tombo
entre 1996 e 1998, adverte para os riscos de "uma utilização pouco escrupulosa" de um arquivo como este, que é constituído por "documentação de uma instituição especializada na devassa da vida privada, não só dos inimigos do regime, mas também e toda a espécie de suspeitos". Irene Pimentel adianta: há suspeitas de que material deste arquivo tenha já sido utilizado para chantagem em Portugal e Angola. E Mattoso adverte: "A curiosidade perversa dos agentes da PIDE transformou-se em predilecção por tudo o que pudesse desacreditar os membros da oposição, em particular a vida sexual. Por ouro lado, o uso e o abuso da tortura levaram a uma discriminação entre os que "falavam" e os que resistiam, com o consequente opróbio e humilhação dos primeiros. Esta distinção ficou marcada até hoje. Todavia pertence à vida privada. Mesmo que seja conhecida, não pode ser usada enquanto afectar a pessoa em causa. A meu ver, deve existir o maior escrúpulo em manter oculto aquilo que a lei protege (a vida privada) e evitar juízos morais sobre o comportamento pessoal seja de quem for."

O arquivo da PIDE não chegou à Torre do Tombo intacto. Uma parte foi destruída pela própria polícia política; outra, mais substancial, foi roubada depois do 25 de Abril de 1974, nomeadamente durante o período de oito anos em que esta documentação esteve à guarda da Comissão de Extinção da PIDE/DGS, em Caxias.

O roubo foi perpetrado tanto por particulares, como por organizações e partidos políticos, sobretudo pelo PCP. Sabe-se agora que, na sequência destes actos, uma parte foi parar a Moscovo.

"Nos anos 1975 a 1977, estando eu no Governo [como titular das pastas do Comércio e da Agricultura], alguém, cujo nome esqueci, aproximou-se de mim, na rua, mostrou-me dois ou três documentos sem importância, mas que provinham dos arquivos da PIDE. Ambos me diziam respeito. Recusei a "oferta", assim como o negócio que me propunha: pagar à página os restantes documentos que ele disse que teria em casa ou a que teria acesso", conta António Barreto.

Em 1998, o escritor comunista Mário de Carvalho - hoje com 70 anos, sob vigilância desde 1967, preso em 1971 quando estava na tropa, partiu para o exílio na Suécia no ano seguinte - saiu desiludido da sua incursão à Torre do Tombo. Dos vários dossiers referenciados em seu nome, desaparecera "curiosamente" aquele que deveria conter os relatórios da vigilância policial e as informações que sobre ele foram prestadas por "bufos". Era a parte em que estava mais interessado. "Estão lá imensos elementos processuais. Muitas cartas minhas, da Suécia, ou que me foram dirigidas pela minha mulher, por familiares. Mas não consegui apurar nada que não fosse burocrático", conta. Por exemplo, este ofício datado de 1970, com origem no gabinete do Ministro do Interior, e por via do qual ficou vedado o seu acesso a um posto na Direcção-Geral das Alfândegas, a que concorrera: "Não oferece garantia de cooperar na prossecução dos fins superiores do Estado." Outra informação dava conta da sua inscrição no Cineclube Universitário, com o nº 1559. A inscrição nesta associação era um passaporte certo para se ficar sob a mira da polícia. Na informação sobre Mário de Carvalho, a PIDE explica porquê: o cineclube era considerado de "tendência esquerdista, dado que na sua direcção estavam membros do "pcp" [escrito assim, em minúsculas] e de outras correntes avançadas".

Mário de Carvalho continua a não saber até onde iam as informações em poder da polícia, mas já então sabia que estava a ser seguido. Ainda hoje se lembra da matrícula do carro que o acompanhava. Ficaram-lhe também outras coisas: "Consigo ver sem ser visto, ainda tenho esse reflexo. Saber quem vem atrás de mim."

Cartas que não chegaram
Dos cinco dossiers referenciados em nome de Helena Cabeçadas desapareceram três. Mas o que viu naqueles que restaram chegou e sobejou. Em Bruxelas, as suas actividades políticas continuaram a ser reportadas para Lisboa. Por vezes através de relatórios escritos em francês, provavelmente oriundos da polícia de estrangeiros belga. António Barreto também viu descritas as suas actividades no exílio: "Fiquei chocado, mas não necessariamente surpreendido, quando verifiquei que havia pequenas informações enviadas por polícias estrangeiras (nomeadamente a francesa) sobre as minhas deslocações nesses países."

Mas o mais chocante, para todos eles, foi a descoberta das cartas. Na altura, as pessoas falavam pouco por telefone (não estava em todo o lado, era caro e de pouca confiança) e, claro, não existia Internet nem correio electrónico. Por isso, escreviam-se cartas. Muitas e com muitas páginas. As que foram escritas por aqueles que se encontravam sob vigilância, ou as que lhes eram dirigidas, acabaram, na maior parte das vezes, nas mãos da polícia política.

Muitas vezes, a PIDE ficava com os originais e as cartas nunca chegavam ao seu destino. Outra vezes fazia cópias (por exemplo, batendo à máquina o que lá estava escrito) e reencaminhava depois os originais para os destinatários. Não era raro acrescentar algo.

Aos 16 anos, Maria Eugénia Varela Gomes, que hoje tem 52, e era de uma família da oposição activa ao regime, recebeu uma carta escrita da Alemanha pelo seu namorado de então e que vinha acompanhada com uma fotografia pornográfica. Naquele tempo uma imagem destas estava muito longe de ser algo quase banal como o é actualmente. A relação só não acabou de imediato porque a mãe dela lhe revelou que era uma das manhas habituais da PIDE, que ela própria já tinha recebido algo parecido. O poder também se exercia assim.

Na Torre do Tombo, uma das muitas cartas que Helena Cabeçadas descobriu era de um namorado. Outra da sua maior amiga de então, onde lhe contava a história em curso do "seu primeiro grande amor", laboriosamente anotada nas margens pelos polícias do regime. É outra marca: aos nomes citados acrescentavam-se os respectivos apelidos e números de processo.
Quem não encontrava no ficheiro, logo era referenciado: "Abra-se processo em nome de..."

Na carta para Helena onde a sua grande amiga relatava a descoberta do amor, e que nunca lhe chegou às mãos, estavam anotados vários "comentários ordinários". Fora conspurcada. Como a sua fotografia: "Eu tão nova, com um sorriso lindo, e aqueles pides, durante todo aquele tempo, podiam olhar para mim. E aquelas cartas! Deu-me uma zanga, uma revolta!"

Confissões sob tortura
Joana Lopes, 70 anos, doutorada em Lógica Matemática - nos anos 60 e 70 activista dos grupos próximos do que se designou chamar "católicos progressistas", sobre quem escreveu recentemente um livro, Brumas da Memória - encontrou no Tombo o que esperava: "Tudo o que se relacionava com envolvimentos públicos; abaixo-assinados, relatórios sobre instituições a que pertencia." Mas constatou que felizmente a PIDE nada apurara sobre as suas actividades clandestinas. E deparou-se também com algo de que não estava à espera e que foi o que mais a chocou: "Um processo só com cartas, absolutamente pessoais, incluindo a de um namorado. Algumas eram de pessoas a quem já não reconhecia a letra nem a assinatura - mas estavam devidamente identificadas pela PIDE. Trinta e tal anos depois, foi um verdadeiro murro no estômago, que me deixou uma noite sem dormir."

E de que é feita a História quando os arquivos policiais são a fonte? José Mattoso é veemente: "A utilização do arquivo da PIDE para averiguar factos históricos ou actos pessoais, como acontece com todos os fundos arquivísticos análogos, exige precauções críticas especiais, devido ao facto de as informações nele existentes se destinarem sistematicamente à acusação de suspeitos e não à sua defesa. A sua incriminação não se limita aos delitos políticos e actividades subversivas; baseia-se em meras suspeitas, muitas vezes abusivas ou infundadas, e alastra sobre a vida privada; usa o testemunho de informadores ansiosos por demonstrar o seu zelo, e inclui confissões arrancadas sob tortura."

Outra constatação de Joana Lopes após a sua incursão à Torre do Tombo: "Vi que os agentes inventavam coisas para mostrar serviço. Isto pôs-me de pé atrás em termos de fiabilidade sobre o que encontrei nos processos de outras pessoas." Nos dias em que esteve no Tombo, aconteceu a Joana Lopes isto: "Ao mergulhar na leitura, não só dos meus processos mas, sobretudo, de alguns mais "pesados", tive um tal sentimento de voltar à realidade do fascismo que dei por mim a olhar à volta como se estivesse a ser vigiada, como se ler aqueles papéis fosse uma actividade perigosa e clandestina."

O arquivo da PIDE continua a ser uma arma, que paradoxalmente hoje poderá afectar mais as vítimas do que os vitimadores.

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É preciso tempo para ir à Torre do Tombo, mas só isso não chega

16.03.2008
Eles também estão nos arquivos da PIDE, mas até hoje evitaram ser confrontados com aquela memória. Reveladoramente, foi o que fez a maioria das 16 pessoas ouvidas pelo P2: não foram. Alegam falta de tempo, desinteresse, desprezo. Nunca medo, mas arquivos como este podem ser poços de descrença. Como sucedeu na ex-RDA, quando se descobriu que quase todos espiavam quase todos, independentemente de laços de sangue ou de amizade.

O actual ministro da Justiça, Alberto Costa, viu o seu processo logo após o 25 de Abril de 1974, quando foi colocado na Comissão de Extinção da PIDE/DGS. Não voltou a procurá-lo na Torre Tombo: "Há dias ofereceram-me uma cópia do documento, assinado pelo director da PIDE, que ditou a minha exclusão da lista da CDE [oposição democrática] de Leiria em 1969, e regressei por
momentos a esse mundo. Mas repetir essa viagem não faz parte das minhas prioridades."

Desde 1994, altura em que o arquivo da PIDE passou a estar aberto ao público na Torre do Tombo, foram feitos cerca de 21 mil pedidos de consulta. Nos arquivos nacionais ainda não se fez a contabilidade de quantos foram feitos pelos que têm o nome nos processos e de quantos foram feitos por investigadores. Há um corrupio deles, nacionais e estrangeiros. Por vezes, são estes investigadores que decidem entregar cópias às pessoas cujo passado estiveram a pesquisar, e que evitam lá ir.

É assim que o deputado socialista Manuel Alegre, 72 anos, preso em 1963 e que partiu para o exílio no ano seguinte, e o músico Sérgio Godinho, 63 anos, sob suspeita desde a gravação, em França, do primeiro disco, têm sabido por terceiros partes do que a PIDE sabia sobre eles. Aquilo a que os investigadores têm acesso é sempre menos do que os próprios, mas esta possibilidade de ir mais além não convence nem um, nem outro.

Manuel Alegre: "Conheço a minha vida. Mas o que diz respeito a eventuais denúncias e informadores, que era o que me podia interessar, está-me vedado." Sérgio Godinho: "Não sou um investigador de mim mesmo, nem sou um herói do antifascismo. Talvez lá vá um dia, mas não estou à espera de nada que seja chocante."

Odete Santos, 67 anos, vigiada desde a Faculdade de Direito, advogada e deputada do PCP até ao ano passado, revela que o seu processo está identificado com a indicação de que foi proibida de ser funcionária pública. Era um dos castigos aplicados aos opositores ou suspeitos de tal. Não sabe mais: "Não fui ver o meu processo por falta de tempo, por desleixo. Irei agora que tenho mais vagar."

Segundo Saldanha Sanches, fiscalista, 62 anos, que esteve preso durante mais de seis anos, em arquivos como este existem duas coisas que "devem ser extremamente chocantes" e podem justificar o receio de uma incursão pelos documentos da PIDE. Uma é ser-se confrontado "com depoimentos de pessoas amigas, a incriminar-nos"; a outra é ser-se confrontado consigo próprio: "Ler as declarações que se fez, extraídas depois de uma coacção fortíssima, sob tortura. Naquelas confissões há uma série de pormenores que, 30 anos depois, os próprios já esqueceram. Tudo descrito em pormenor e depois o nome assinado por baixo. As pessoas que falaram, ficaram sempre com esse fardo e serem confrontados depois com isso, tantos anos depois...." Ele não foi ainda consultar o seu processo, porque a ocasião não se apresentou.

A procuradora Maria José Morgado, 56 anos, que estava presa no 25 de Abril, considera que "não vale a pena ter medos" como estes. Nos tempos a seguir à revolução, viu o seu processo na Boa Hora, onde iria ser julgada por crimes contra a segurança do Estado (foi amnistiada com o fim do regime). "Vi também as minhas declarações nos interrogatórios que, como é óbvio, se resumiam a isto: "recuso-me a prestar declarações"." Não voltou a consultar o seu caso: "Não tenho vida para consultar arquivos pessoais."

Francisco Louçã, 52 anos, preso em 1972 na capela do Rato e hoje dirigente do Bloco de Esquerda, tentou ir ver, mas quando pediu o seu processo, este "estava emprestado" ao arquitecto Nuno Teotónio Pereira, preso com ele no mesmo dia. "O realizador de um documentário fez-me o favor de me enviar a foto da prisão." Antes do mais "por uma questão de personalidade", o deputado do BE João Semedo, 57 anos, médico, preso em 1972, também não viu: "Nunca senti qualquer curiosidade ou interesse em saber o que a PIDE sabia sobre a minha vida. Acho que essa curiosidade acabou no dia 25 de Abril. É um passado que enriqueceu quem o viveu e que, de certa forma, nos enriqueceu a todos como geração. Do passado, bastam-me essas marcas. Não sinto qualquer necessidade de voltar a esse passado, ainda por cima pela escrita sórdida e canhestra de um qualquer pide."

O historiador José Mattoso, que foi director da Torre do Tombo, não esconde o seu desprezo: "À pergunta que me é feita para saber se tenho ficha na PIDE e se consultei o meu eventual processo, respondo que não sei, nem me interessa. Assumi sempre a responsabilidade dos meus actos públicos e privados, é-me indiferente o que se possa pensar a meu respeito. Não me parece, em todo o caso, que o arquivo da PIDE seja o lugar ideal para, a partir dele, traçar a minha biografia."

segunda-feira, 10 de março de 2008

«Saudades de D.Afonso»

NUNO PACHECO - P2, Público 10/3/2008

Isto de Portugal andar como anda dá volta ao miolo das pessoas. Há dias, num daqueles fóruns radiofónicos matinais onde o povo desabafa o que lhe vem à cabeça, uma ouvinte deixou sair esta frase lapidar: "Eu já nem digo que tenho saudades do Salazar... Mas tenho saudades do D. Afonso Henriques!"

Se virmos bem, todos temos. Como se fosse ontem, que não nos traia a memória. Foi algures entre um Sócrates e outro, o ateniense, muitos séculos antes, e o de Vilar de Maçada, muitos séculos depois. E reza a história que o seu reinado durou 46 anos (Salazar ficar-se-ia pelos 40, por causa da tal cadeira). Se fizessem agora um Conta-me como foi baseado na aventura afonsina não lhe faltariam combates, conquistas e reconquistas, manhas e vassalagens e tudo o que mais povoou esses anos em que Portugal nasceu e ficou relativamente barato: em 1143, após a conferência de Zamora, o ex-infante e já então rei D. Afonso Henriques, comprometeu-se a pagar ao Papa quatro onças em ouro pela protecção de Roma. Todos os anos. Muito menos, comparativamente, do que cada português paga agora anualmente ao fisco para não ser rei nem senhor de coisíssima nenhuma.

Mas adiante. Pois esses tempos em que D. Afonso andava a conquistar castelos à mãe, por aversão a cumplicidades galegas e aos tronos de Leão e Castela, só podem mesmo deixar profundas saudades aos portugueses que neles viveram. Invasão aqui, saque ali, a pátria erguia-se a contento, ainda sem algarves nem ilhas para atrapalhar, desafiando à vez castelhanos e sarracenos. Era tal, aliás, a fúria conquistadora do intrépido Afonso que Fernando II de Leão teve de prendê-lo para que desistisse de conquistar Badajoz. No nosso tempo, correspondia a mandar uma criança de castigo para o quarto depois da milésima patifaria, mas naquela época (não tão distante assim, como nos provou a ouvinte dela saudosa) era um pouco mais duro. Seja como for, D. Afonso quis mesmo deitar a mão a Badajoz, falhou, e foi preso para prometer que não voltava a repetir a façanha. Não voltou. Mas urdiu logo outras, bem mais imaginativas. E lá foi Geraldo Geraldes, o Sem Pavor, atirar-se a Beja ou D. Sancho aventurar-se no Guadalquivir.

Mas era uma época harmónica, sem dúvida, onde cotas só havia as de malha metálica e onde as mulheres, em vez de serem professoras e se cansarem a lutar contra ministras da Educação, eram postas a fiar linho e a suspirar pelos seus amados guerreiros, ai Deus e u é. Isto nas cortes, porque fora delas a arraia-miúda escassa história deixava para contar, a não ser um rol de maleitas e misérias a que poucos ou nenhuns prestavam atenção. Mas sim, era uma época muito saudosa, nem vamos sequer pôr isso em dúvida. E tudo há apenas escassíssimos oito séculos, como não nos havíamos de lembrar? E não se recordam da Lusitânia, dos castros e das citânias, da velha Olissipo? Isso sim, é que era vida saudável... Também nos lembramos, claro, e temos saudades, do Portugal próspero, moderno, justo e sempre livre. Mas não é fácil ter saudades do futuro.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

«Dois tristes tigres»

Nuno Pacheco, em Público, 4/2/2008


Quando se ouviram as primeiras notícias, houve quem as interpretasse como elogio metafórico ao par de ministros que nessa manhã tomaria posse. Dois tigres à solta? Agora sim, finalmente o país podia arribar. Mas não era nada disso, como se viu. Havia mesmo dois tigres à solta, daqueles às riscas, de Bengala mas não trôpegos, que tinham aproveitado uma súbita e inesperada abertura da jaula. Que mão misteriosa aliviara os rodízios? Que perfídia contra a Pátria mente doentia engendrara, ainda para mais nessa manhã solene de tomada de posse? Seria algo como os longínquos pregos na estrada da ainda mais longínqua greve geral, mas em versão zoológica, para acicatar o pânico? Ou seria, como já se anedotava nas tabernas da zona, que algum grupo de fanáticos adeptos dos ministros cessantes soltara os tigres para que comessem os novos antes da posse, abortando de forma sangrenta a remodelação em curso?

Enquanto os humanos se entretinham nestas elucubrações esvaziadas de sentido, os tigres experimentavam a doce sensação da liberdade. Dentro da jaula, os seus pares tinham-nos avisado: lá fora é perigoso. Eles, um casal sem comprometimento óbvio (tigre macho e fêmea, disseram depois os jornais), não quiseram saber. Destemidos, como os pinguins de Madagáscar, queriam mesmo conhecer o mundo para lá da jaula e do circo onde tinham de fazer umas habilidades para ganhar a vida. Além do mais, os donos das tendas, levando à letra pareceres da procuradoria (coisa que ninguém faz, evidentemente), tinham-lhes recusado subsídio de exclusividade só porque eles, de forma dedicada e gratuita, tinham pequenos arranjos por fora, ora substituindo o Hobbes do Calvin durante as férias, ora o leão da Metro em filmes de menor importância, com a devida maquilhagem e peruca.

Por isso arriscaram. Empurraram com a pata a porta já entreaberta, saltaram a estrada e fizeram-se ao mundo. Talvez ainda pudessem espreitar a tomada de posse, só para saber como era (no circo, não havia remodelações, a não ser por morte, tinham-nos nomeado tigres vitalícios). Mas os humanos não mostraram grande disposição para veleidades felinas. Primeiro entraram em pânico, pelo menos os que não puderam logo entrar num carro e fugir dali. Depois chamaram a GNR, os bombeiros, a protecção civil. Não chamaram o exército, mas também não adiantava, porque este estava de prevenção para acudir com fanfarras ao centenário do regicídio (embora depois não acudisse, porque a Defesa teve um frémito republicano e proibiu tudo).

O que se seguiu, na aventura dos tigres, não desmereceu as proezas do circo. Domadores, forças militarizadas, bombeiros e populares mais afoitos (dizendo "eu vi um tigre" com a entoação infantil de "eu vi um sapo") andaram às voltas para encontrar sedativos. Que estavam num lado, enquanto a espingarda estava noutro, juntar os dois foi o cabo dos trabalhos. Um helicóptero da televisão assustou um dos tigres, que se feriu numa pata. Quando as picadas chegaram, já quase as desejavam. Antes a agulha do que uma bala. Com os humanos, nunca se sabe.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

A Acção Católica em Portugal (5)




A ACÇÃO CATÓLICA EM PORTUGAL
UM TESTEMUNHO - (Parte 5 e Última)

por Sidónio de Freitas Branco Paes (1925-2006)




15. A actualização da Acção Católica Portuguesa

Neste clima animado e um tanto acidentado, ia-se processando o estudo da remodelação estatutária da A.C.P.. O trabalho preparatório esteve inicialmente a cargo da Comissão de Reestruturação, coordenada por José Manuel Galvão Teles, que depois foi o membro da Junta Central encarregado dessa tarefa. Mais tarde, por proposta do Conselho da Junta Central, a discussão e redacção dos textos finais, a submeter à aprovação do Episcopado esteve a cargo de uma Comissão mista, formada por delegados da Conferência Episcopal e por um grupo de diálogo eleito por aquele Conselho [1] . Os trabalhos desta Comissão mista começaram em 8 de Fevereiro de 1969, e decorreram num clima desinibido, como se de uma negociação paritária se tratasse. Partia-se de textos apresentados pelo grupo dos representantes leigos, que haviam sido elaborados na Comissão de Reestruturação e, depois, discutidos e votados pelo Conselho Nacional, em sessões plenárias. Os textos finais submetidos à aprovação da Conferência Episcopal resultavam dos consensos conseguidos na Comissão mista de diálogo.

Se noutras circunstâncias, atrás referidas, o diálogo com o Episcopado fora difícil, senão impossível, neste caso decorreu de modo franco e cordial. Apenas se registou um incidente grave devido ao facto de a Comissão Episcopal para o Apostolado dos Leigos ter decidido suspender o diálogo sobre a actualização, por José Manuel Galvão Teles (membro da equipa de leigos) ter colaborado nos cadernos do GEDOC (que tinham uma orientação de crítica à situação política). O Conselho Plenário da Junta Central não aceitou esta atitude, e aprovou a seguinte resolução, na reunião de 31 de Maio e 1 de Junho de 1969:

«I - Revisão da Comissão de Diálogo: Tendo o Conselho tomado conhecimento das razões que levaram a Comissão Episcopal a suspender o diálogo sobre a actualização da Acção Católica Portuguesa com a Comissão eleita por este Conselho em 12 de Janeiro de 1969, decidiu:
1.- ratificar a sua confiança em todos os membros da referida Comissão, nomeadamente no José Manuel Galvão Teles;
2.- continuar a considerar o José Manuel Galvão Teles como elemento competente e intérprete fiel do pensamento do Conselho no diálogo com o Episcopado sobre a actualização da A.C.;
3.- por este motivo e perante os resultados já alcançados, o Conselho manifesta a sua apreensão pela interrupção de um trabalho de diálogo que se revelou frutuoso e que ardentemente se deseja;
4.- o Conselho Plenário faz um apelo à Comissão Episcopal para que, numa atitude de diálogo, prossiga, urgentemente, o trabalho com a mesma Equipa. Neste sentido, o Conselho Plenário encarrega a Junta Central de promover as diligências necessárias»
[2].

As conversações estiveram suspensas até Outubro, quando o Conselho da Junta Central decidiu prossegui-las sem a presença de Galvão Teles que, entretanto, se candidatara a deputado numa lista do CDE - o que constituía, de facto, um compromisso político partidário. Daí por diante decorreram em excelente clima e ritmo. Assim, em fins de 1970, a Comissão mista chegou a acordo sobre um projecto de Princípios Básicos orientadores da actualização que, em 24 de Junho de 1971, foram aprovados pela Conferência Episcopal, a título experimental, por cinco anos.


16. As inovações dos Princípios Básicos

O confronto destes Princípios Básicos com as Bases Orgânicas de 1933 (revistas em 1945), mostra a longa caminhada realizada pela A.C.P., na concepção do seu modo de estar na sociedade e de funcionar internamente. Trata-se de um extenso texto, muito denso de sentido, fundamentado na doutrina do Vaticano II sobre a Igreja, a sua postura no mundo contemporâneo e o apostolado dos leigos, e na longa prática da acção católica. Não cabe, aqui, transcrevê-lo na íntegra, e resumi-lo é uma tarefa difícil [3]. Tentarei apenas assinalar alguns aspectos que marcam as principais diferenças entre a concepção actual e a inicial, de 1933.

O capítulo I, Natureza e missão da Acção Católica, é o fulcro doutrinário de toda a nova concepção, e torna-a isenta das características negativas atrás referidas na formulação crítica do Bispo do Porto (cf. o parágrafo final da secção 8). Em vez da definição tradicional, que acentuava a dependência da Hierarquia, abre com a definição da finalidade e da natureza associativa (nas citações seguintes os sublinhados são nossos):
«I-1. O fim imediato da Acção Católica é o fim apostólico da Igreja: levar aos homens a mensagem e a graça de Cristo, formar-lhes as consciências e, a seu modo, penetrar e actuar com o espírito do Evangelho as realidades temporais (Cf. AA. 20 e 5). Estas dimensões do apostolado, embora se possam distinguir conceptualmente, não se podem separar na vida dos leigos - muito menos sendo estes militantes da A.C. - e constituem obrigação global desta.»

Com esta clareza meridiana são, desde logo, atribuídas à A.C.P. as três dimensões inseparáveis do apostolado dos leigos: a difusão da mensagem cristã, a formação das consciências nela, e a animação cristã da ordem temporal (segundo o termo técnico expresso no Concílio, que significa a sociedade civil). As modalidades desta tríade são a seguir especificadas. E cito, pela sua novidade, o ponto que ao último aspecto se refere:

«I-4. Relativamente à animação cristã da ordem temporal:
4.1. A A.C. deve contribuir a seu modo para a divulgação e o desenvolvimento da doutrina cristã sobre as realidades terrenas e formar nela a consciência dos leigos, designadamente pela forma expressa em 6.
4.2. Os movimentos que são A.C. devem estimular e formar os seus filiados para assumirem as suas responsabilidades e comprometerem-se como cidadãos no trabalho de construção do mundo, sobretudo da sociedade portuguesa, segundo as exigências cristãs.
4.3. A A.C. não deve comprometer-se com programas concretos em matéria temporal, devendo, porém, exercer a função esclarecedora e crítica da fé, em relação aos princípios que os informam. Todavia, em certos casos, supletivamente, a A.C. poderá por exigência de evangelização, sem prejuízo das suas finalidades, organizar ou cooperar em realizações de promoção humana.
4.4. No exercício do seu apostolado, segundo o método indicado em 6. e tendo em atenção 4.3., a A.C. poderá tornar públicas as declarações resultantes da aplicação dos princípios cristãos a situações e factos de vida concretos. Ao fazê-lo, por sua iniciativa e sob a responsabilidade que lhe cabe, deverá ter em conta e nunca contrariar declarações doutrinais ou orientações pastorais expressas da Hierarquia. Estas declarações, todavia, não devem ser tornadas públicas sem conhecimento e acordo prévios da Hierarquia competente.
4.5. As opções concretas, designadamente em matéria temporal, tomadas a título pessoal pelos filiados e dirigentes, não comprometem a A.C.. No entanto, como sinal de independência política da A.C., não deverão os seus dirigentes ou membros das equipas coordenadoras exercer simultaneamente funções directivas ou de propaganda em agrupamentos políticos.»

O ponto I-6, acima citado, é fundamental por estabelecer a revisão de vida como metodologia da A.C.P., e marca o novo estilo que se vinha praticando:

«6. O apostolado que a A.C. como movimento de leigos deve realizar, implica:
6.1. Prestar atenção aos acontecimentos e descobrir neles as aspirações e necessidades dos indivíduos e da sociedade, tendo em conta especialmente aqueles que se imponham pela sua generalidade e frequência.
6.2. Formular, à luz do Evangelho e do Magistério da Igreja, um juízo sobre o valor e significado das realidades descobertas, procurando discernir os apelos de Deus presentes na vida.
6.3. Desenvolver uma acção dinâmica, pessoal e de grupo, pela palavra e pela actuação, que seja testemunho do Evangelho, resposta cristã aos problemas do homem, de modo a imbuir de espírito cristão as diversas comunidades e meios.»


Novidade também era a afirmação do princípio de bilateralidade na cooperação entre a A.C.P. e a Hierarquia. O ponto I-8 reconhece que «a A.C. coopera com a Hierarquia pondo a experiência dos leigos, inseridos nas diversas comunidades e meios, ao serviço da Igreja, no estudo das circunstâncias e condições em que a Pastoral se há-de realizar, bem como na elaboração e execução dos respectivos planos».

E o ponto I-9 prevê um duplo movimento de comunicação com a Hierarquia, ascendente e descendente, ao estipular que a A.C. tem «particular responsabilidade em tornar presente a Igreja nos diversos meios e comunidades de vida» e, por outro lado, possui «qualificada competência para tornar presentes à Igreja as realidades, valores e problemas nuns e noutras descobertos.»

Como nota distintiva, é reconhecido um laço particularmente estreito entre a A.C. e a Hierarquia, pelo facto de o apostolado da A.C. se realizar «em regime de mais directa co-responsabilidade com a Hierarquia na missão apostólica da Igreja, (...) em coordenação com o apostolado da Hierarquia e por se ordenar mais directa e amplamente à realização dos objectivos pastorais da Igreja» (cf. I-14).

Esta «vinculação mais directa e imediata pelo facto de a Hierarquia a unir mais intimamente ao seu próprio múnus, e, consequentemente, assumir nela responsabilidade especial», implica pertencer ao Episcopado «a superior orientação da A.C. (cf. AA. 20, d)» (I-15.). Esta orientação abdica do poder executivo, a função de Director Nacional deixa de existir. «As relações orgânicas da A.C.P. com o Episcopado, a nível nacional far-se-ão entre o Conselho nacional da A.C.P. e a Conferência Episcopal Metropolitana» (cf. IV-5.1); e as relações habituais serão entre a Equipa Executiva Nacional e um «Bispo para isso designado pela Conferência Episcopal» (cf. IV-5.2). E, como é próprio de um acordo negociado, a «superior orientação» era especificada e circunscrita, no último ponto deste primeiro capítulo, que embora longo é importante transcrever na íntegra:

«I-16. Esta superior orientação, que respeita sempre a natureza e distinção de ambas as partes e não tira aos leigos a necessária liberdade de acção (cf. AA. 24), situa-se num plano diferente da direcção laical e concretiza-se do seguinte modo:
16.1. Reconhecimento e declaração oficial de que um determinado Movimento é ou não é de Acção Católica;
16.2. Aprovação dos Estatutos dos Movimentos que são Acção Católica;
16.3. Aprovação dos planos gerais de acção de conjunto, decididos pelo Conselho Plenário Nacional ou por cada um dos Conselhos Plenários Diocesanos;
16.4. Aprovação dos candidatos a dirigentes a nível nacional ou diocesano, bem como sua exclusão, ou mesmo a destituição de dirigentes em exercício, sempre que, por actos da sua conduta pessoal ou no exercício das suas funções, sejam gravemente infiéis à natureza e missão da Acção Católica, tal como são definidas neste documento;
16.5. Nomeação dos assistentes;
16.6. Atenção à formação dos filiados e à preservação da doutrina e da ordem tendo em conta o bem comum da Igreja (cf. AA. 24), o que fará especialmente pela acção dos assistentes;
16.7. Proposição clara dos princípios relativos ao valor das realidades terrestres e à sua ordenação ao serviço da pessoa humana, considerada a sua vocação temporal e eterna;
16.8. Reconhecimento e definição do papel e lugar que, de acordo com as suas características essenciais, cabe à A.C. na pastoral orgânica, ouvindo a sua opinião e considerando a sua experiência;
16.9. Apoio à A.C. que incentive o trabalho dos dirigentes e assistentes, compartilhando os seus problemas e realizações e ajudando-os nas suas dificuldades;
16.10. Tomar conhecimento do relatório anual e contas da A.C. em plano nacional e em cada Diocese.»

Os capítulos seguintes [4] estabelecem as disposições para a A.C.P. se organizar e funcionar como uma federação de Movimentos, constituídos e dirigidos por leigos; dirigentes que são eleitos pelos órgãos associativos de deliberação, entre candidatos que, só nos âmbitos nacional e diocesanos, são previamente aprovados pela Hierarquia. As Juntas foram substituídas por Equipas Executivas, uma em cada diocese e uma nacional. Dotadas de funções directivas, emergem dos Conselhos Diocesanos e Nacional formados, aqueles, pelos presidentes diocesanos dos Movimentos, este, pelos respectivos presidentes nacionais e pelos presidentes dos Conselhos Diocesanos.

Cada um dos Conselhos elege o seu presidente e dois secretários, que o são também da Equipa Executiva, competindo ao presidente escolher os restantes membros, em número aprovado pelo Conselho (do qual também farão parte). Assim a A.C.P. passa a estruturar-se a partir da base para o vértice, e a funcionar, segundo regras participativas, em resposta às realidades vividas pelos militantes, nos diversos meios sociais e níveis estruturais.

Pretendeu-se criar uma estrutura associativa do laicado, com uma amplitude abrangente de toda a sociedade. A sua relação privilegiada com a Hierarquia Eclesiástica, traduzia-se na orientação doutrinal e em certos poderes de supervisão bem delimitados. Mas a orientação e a responsabilidade da acção pertencia aos leigos. E assim permitia uma maior latitude de intervenção sem comprometer o Episcopado. Era uma aposta ousada, menos sujeita do que anterior a possíveis ambiguidades, mas não isenta delas. Seria possível cumpri-la, na situação portuguesa de então?...


17. O declínio da Acção Católica Portuguesa

Os tempos, entretanto, estavam mudando rapidamente, e a época pós-conciliar via acentuarem-se tensões demolidoras dentro da Igreja, atingindo por vezes níveis de ruptura. Em Portugal, os exemplos mais dramáticos foram os casos do Padre Nascimento, do Padre Felicidade Alves e da Capela do Rato. No fim da década de 1960 e início dos anos 1970, padres abandonam o sacerdócio, cristãos separam-se da Igreja, militantes de escol deixam a Acção Católica, sem que se encontrem vias de conciliação e concórdia. Politicamente, as tensões também se agravam com o fracasso da breve primavera do Marcelismo, e a persistência desesperada e inglória das guerras coloniais, sem quaisquer tentativas de solução pacificadora (para além do manifesto frustrado do General Spínola).

Neste ambiente crescentemente hostil, a A.C.P. não conseguiu reestruturar-se, nem revitalizar-se, segundo o modelo proposto pelos Princípios Básicos. A situação parece tão mais paradoxal quanto estes Princípios, longamente meditados e laboriosamente negociados com a Hierarquia, criavam, como vimos, as condições desejadas para a A.C.P. se estruturar de forma democrática, e agir com maior grau de autonomia e responsabilidade.

Foi então que saí da Junta Central, por motivos de ordem profissional, mas também desgostoso pela forma como se processavam as relações do Episcopado com a Acção Católica. Lembro-me que quando me despedi do Cardeal Cerejeira, sempre em termos cordiais, o Senhor Patriarca disse que tinha esperado ser possível unir os leigos cristãos para uma acção comum. Só que, na situação sócio-política portuguesa de então era impossível pensar num «cor unum et anima una» (como propunha o velho lema da A.C.P.).

Não tendo acompanhado o que aconteceu desde fins de 1970, vou socorrer-me da opinião autorizada do Cónego António dos Santos, no já citado artigo Revisão Histórica da Acção Católica Portuguesa, que assim o descreve:
«Após a elaboração e aprovação das Bases, esperava-se uma viragem, um recomeço de vida nova; que um novo dinamismo impulsionasse os diversos Movimentos da A.C. para não só reencontrarem a sua identidade, como ocuparem o seu lugar específico na Pastoral da Igreja. Isto não aconteceu. Pelo contrário, a crise acentuou-se cada vez mais, na década de 70. Muitos militantes abandonaram os Movimentos. Uns por cansaço, outros por não concordarem com as orientações dadas, por acharem que os Movimentos eram pouco reivindicativos, não se comprometiam na vida, não assumiam posições concretas nos problemas da vida nacional» (op. cit., p. 41) [5].

Parece que um clima de desencanto se vai insinuando, tanto do lado dos leigos, como da Hierarquia, assim caracterizado pelo Cónego António dos Santos:
«Surgiram as dúvidas e as suspeições. Os que ficaram, em número reduzido, também se interrogavam sobre a validade da sua presença e actuação. Dir-se-ia que a A.C.P. estava entregue à sua sorte. Apesar das declarações oficiais de aprovação e de apreço, havia reticências e, concretamente, não se viu um esforço sério para clarificar a situação e ajudar a sair do impasse. A A.C. perdeu, nestes anos, parte da sua credibilidade. (...) O Episcopado ao aprovar as Bases, tinha aprovado o período de cinco anos de experiência. Parece-nos que pouco ou nada se tentou nesse sentido e a experiência processou-se no vazio e na quase indiferença. O problema não era de textos, de instrumentos jurídicos, era, principalmente, de pessoas. Era um problema de orientação doutrinária e, também, de discernimento» (op. cit., pp. 41-43).

Sem uma investigação aprofundada (que implica a consulta de documentos hoje inacessíveis) não é possível detectar as causas múltiplas desta paradoxal decadência. Não podendo empreendê-la, limitar-me-ei a aventar uma hipótese que se me afigura plausível. A hipótese de ter prevalecido no sector mais influente do Episcopado um complexo de receio e desconfiança em relação aos Princípios Básicos. É certo que estes haviam obtido o acordo da Comissão delegada pela Conferência Episcopal. Por isso tinham de ser aprovados. Mas importava armar-se de cautelas, para moderar a dinâmica resultante da sua aplicação. E pela experiência recente, essa dinâmica ameaçava tomar proporções inquietantes para a estratégia conciliadora desde há anos seguida pela Hierarquia da Igreja para com o Estado Novo. Esta hipótese encontra sustento em duas ordens de factos.

O êxito na concretização da nova estrutura e a sua coesão dependiam, em grande parte, da constituição de Equipas Executivas diocesanas e nacional que, como dissemos, emanassem dos Movimentos, e estivessem profundamente empenhadas no processo de actualização. Tal não sucedeu, porque, em Outubro de 1970, aproveitando a minha saída e de outros membros da Junta Central, o Cardeal Patriarca (ainda Director Nacional da A.C.P.) nomeou novos dirigentes «que na sua maioria não estavam ligados ao trabalho realizado». Fê-lo sem adoptar o procedimento prescrito nos Princípios Básicos (já aprovados na Comissão mista, mas ainda não na Conferência Episcopal), nem consultar os Presidentes Gerais dos Organismos e das Juntas Diocesanas [6]. E, depois da aprovação, a situação não foi prontamente corrigida.

Como observa o Cónego António dos Santos: «A própria Equipa dirigente, no plano Nacional, que acompanhou a elaboração das Bases, desapareceu. Vieram para a Equipa Executiva Nacional novos dirigentes, que na sua maioria não estavam ligados ao trabalho realizado. Pareciam até, um pouco estranhos à organização, e desconhecidos pelos dirigentes dos Movimentos, embora revelassem boa vontade. Isto criou algumas hesitações e equívocos, e a própria Equipa Nacional sentiu-se isolada. Os Boletins da A.C.P. dos anos 71 e 72 e que são os últimos, revelam isso mesmo. Revelam, até, um certo pessimismo e angústia» (op. cit., p. 43).

Um sinal dessa tão estranha apatia está patente no Boletim da A.C.P. (n.º 402, Julho a Dezembro de 1971). Ao justificar os atraso na publicação, o novo Secretário Geral mostra pouco entusiasmo pela orgânica definida nos Princípios Básicos, que critica em vários pontos, e faz esta espantosa confissão: «Com a aprovação dos Princípios Básicos, e dada a ténue estrutura unitária que neles se consagra, muitas dúvidas nos assaltaram sobre a pertinência de um Boletim (...) de toda a Acção Católica Portuguesa: foi sobretudo a intenção de não comprometer este último reduto de unidade orgânica (...) o intuito de legar a quem suceder, após este breve interregno, uma sombra do último traço de união de toda a Acção Católica: dele se fará o que estiver nos desejos dos futuros responsáveis».

Os Princípios Básicos estavam em vigor desde 24 de Junho, e em fins de Dezembro nada a Junta Central fizera para dinamizar as alterações estruturais. O simples facto de qualificar de «ténue» a nova «estrutura unitária» e considerar o Boletim «o último reduto da unidade orgânica» (sic!) só pode revelar a falta de entendimento do dinamismo de que os Princípios eram expressão e pretendiam ainda catalizar. A nova forma da A.C.P. era federativa - já o dissemos -, mas a experiência dos últimos anos de facto também o fora. Durante a preparação da actualização, a Junta Central e o seu Conselho foram o principal motor e factor de unidade; e assim tinham de continuar até passarem o testemunho aos futuros Conselho e Equipa Nacionais.

A cessação desta dinâmica desmotivou, por certo, os militantes dos Movimentos que muito esperavam da aplicação dos Princípios, impulsionada por quem tivesse vivido a sua génese, e se devotasse a pô-los em prática. Foi, seguramente, uma das causas principais do inadmissível «interregno», no qual a Acção Católica perdeu o passado dinamismo; e começou a esboroar-se a sua unidade, que os Princípios também consagravam, embora noutros moldes.

Outro sinal convergente descobrimo-lo na análise comparativa dos Princípios Básicos com o texto da Carta Pastoral da Conferência Episcopal, de 27/6/1971, que os aprovou e prefaciou. Ao aprovar os Princípios Básicos, sem qualquer alteração, o Episcopado, ipso factu, fazia-os seus, e recriava a Acção Católica fundada na doutrina, abundante e conciliar, que os imbuía e justificava. Assim sendo, num limite de síntese, bastaria anteceder o texto dos Princípios de uma a breve introdução decisória. Mas se pretendesse exercer mais extensamente a sua legítima missão doutrinal, podia, na Carta Pastoral, explicar essa mesma doutrina, confirmá-la, reforçá-la, mas sem deixar dúvidas sobre a sua validade. Caso
contrário perfilava-se a figura de uma contradição.

Qualquer legislador, quando promulga um diploma legal, fá-lo anteceder de um preâmbulo doutrinário, em que fundamenta o objectivo e a oportunidade das disposições tomadas e das alterações introduzidas ao statu quo. Ora, no nosso caso, vamos ver que assim não acontece.

A sensação que muitos tivemos, ao lê-la, foi de que a Carta Pastoral (não obstante a sua riqueza doutrinária) ao aprovar «de bom grado» os Princípios Básicos, não os perfilhava plenamente. E, em vez de relevar, justificar e valorizar a sua concepção e as inovações que traziam (como seria legítimo esperar) preferia expor uma doutrina geral que parecia antes infirmá-las. Sendo o conceito de Acção Católica abstracto, é susceptível de várias concretizações institucionais. A cooperação dos leigos com a Hierarquia na missão apostólica da Igreja traduziu-se em estruturas diferentes, nos diversos países em que foi criada. Os Princípios propunham o modelo concreto que a Comissão mista de delegados episcopais e leigos considerara a mais adequada, hic et nunc, para a futura organização e funcionamento da A.C.P.. Mas a Pastoral deixa sérias dúvidas que assim seja. Sem assumir uma atitude crítica aos nossos Bispos - com quem sempre mantive e mantenho relações respeitosas da sua dignidade de Sucessores dos Apóstolos, e de muitos muito recebi, com uma amizade nunca esmorecida -, nem ousar uma análise exaustiva, procurarei indicar alguns dos aspectos que então causaram essa sensação de incerteza e mal estar.


18. Carta Pastoral versus Princípios Básicos ...

A Carta Pastoral começa por aprovar e publicar os Princípios Básicos [7], e logo elogia a A.C.P. em termos calorosos [8]. Com plena oportunidade, esboça a seguir um quadro dramático de problemas ético-sociais e eclesiais, julgados os mais graves:
«Em particular, preocupa-nos, no nosso país, a escassez das vocações sacerdotais, a ignorância religiosa e a debilidade cristã de vastos sectores da população, a desafecção eclesial de alguns jovens e adultos, a invadente corrupção dos costumes, o perigo do laicismo que ameaça as famílias e as instituições sociais, a "miséria imerecida" que oprime muitas pessoas do nosso meio rural, a injustiça que desumaniza as relações de trabalho e gera o ódio no coração dos operários, a contestação que, dentro e fora da Igreja, opõe grupos contra outros grupos e dificulta o crescimento do Reino de Deus na terra.»

Questões ingentes, é claro, que também apoquentavam a A.C.P.. Nota-se, porém, a omissão significativa de algumas de natureza estrutural, tais como as restrições ao exercício dos direitos humanos, que a Acção Católica, como vimos, vinha criticando, e insistindo com o Episcopado para que sobre eles tomasse posição. Seria uma óptima ocasião, que fica desaproveitada, pois que, nessa área, apenas são mencionadas «a miséria imerecida» nos meios rurais, e «a injustiça que desumaniza as relações de trabalho e gera o ódio no coração dos operários».

De seguida, o mandato dos leigos é renovado, mas os termos são os da Base I de 1933, não os dos Princípios: «Como na hora da sua fundação, repetimos hoje à Acção Católica Portuguesa o convite solene para que continue a trabalhar ardorosamente na vinha do Senhor e renovamos-lhe o honroso encargo de connosco e sob a nossa superior orientação, "difundir e defender os princípios católicos na vida individual, familiar e social" [9]».

Esta formulação foi recebida com certa amargura por muitos militantes que tanto se esforçavam por dar à A.C.P. um rosto actual e outro, bem diferente do que recebera à nascença (havia quase 40 anos), porque outros eram os sinais dos tempos. Impressão que mais se acentua no capítulo seguinte, onde é longamente versado um dos temas que, afinal, mais preocupava o Episcopado: a Fidelidade da A. C. P. à sua natureza e missão. São estas, tal como nos Princípios, definidas nos termos do Concílio Vaticano II: «Por essência, a Acção Católica é a organização do laicado que, sob a superior orientação da Hierarquia e em estreita cooperação com ela, assume a responsabilidade da direcção laical do Movimento e tem como finalidade imediata o fim apostólico da Igreja» [10]. A doutrina estava certa (e era a dos Princípios) mas a nota soava mal: insistir tanto na óbvia fidelidade denotava um velado receio de que ela estaria ameaçada...

Ao enunciar as quatro notas essenciais da Acção Católica, a Carta Pastoral firma-as no n.º 20 do decreto conciliar Apostolicam Actuositatem, que também fundamentava os Princípios Básicos; mas acrescenta-lhe outras citações e comentários, cuja hermenêutica não pode senão confundir o conceito de Acção Católica que na realidade se pretende. Fica-se com uma séria impressão de que o Episcopado temia o que fariam os leigos do modelo que sancionava. E em vez de lhe justificar as virtudes, preferiu prevenir os aspectos aonde mais receava que os seus mais íntimos colaboradores se transviassem. Numa análise resumida, entre outros destaco os seguintes:

1º) Ao afirmar que Acção Católica é «apostolado organizado» (op. cit., n.º 7), tocava-se no ponto em que os Princípios mais alteravam o formato de 1933, complexo e burocratizado, como anotámos. Mas a nada se refere a Pastoral, além de generalidades, e de uma ocasional depreciação das «estruturas de quadros burocratizados» (sem reconhecer que os Princípios desburocratizam as anteriores estruturas!); quando não era só (nem principalmente) mudar as estruturas o que se pretendia, mas as relações entre os Movimentos, os Órgãos de Coordenação, os modos de funcionar e de estar no mundo [11].

2º) Quando glosa a nota de que «a Acção Católica é organização de leigos» (op. cit., n.º 8), a Pastoral acentua sobretudo a cooperação com o clero - e a preeminência deste. Para tal cita um texto conciliar do Decreto Sobre os Sacerdotes, manifestamente fora do contexto, por não ser específico da relação sacerdotes-leigos na A.C., e que vem projectar uma inesperada sombra de clericalismo [12]. O dever lembrado aos leigos tem, de novo, carácter genérico e não contextual : «Como todos os fiéis, devem os leigos abraçar prontamente, com obediência cristã, as coisas que os sagrados pastores, representantes de Cristo, determinarem na sua qualidade de mestres e guias na Igreja» (Lumen Gentium, 37); e a insistência, pouco depois, acentua a sensação de desconfiança: «Estamos certos que os nossos filhos do laicado saberão sempre oferecer aos seus pastores a obediência e a oração, a reverência e o amor exigidos pela fé cristã» (op. cit., n.º 8). Não há, neste ponto, qualquer referência ao Assistentes Eclesiástico, mas apenas a «clero», «sacerdotes», «pastores». E, no entanto, os Princípios dedicam-lhe logo o capítulo II a valorizando muito a sua missão, desde o ponto II-1.1: « O Assistente da A.C., em virtude e no âmbito da missão recebida da Hierarquia, é presença desta no interior do movimento e aí assegura, de forma orgânica, a cooperação directa com o apostolado hierárquico, na realização dos fins próprios da A.C.»; e a quem reconhecem uma «função de natureza ministerial ou hierárquica» (II-1.2), mas não directiva (II-2.1).

3º) A estreita colaboração com a Hierarquia é, também, tratada de modo demasiado geral. Não falta o apelo ao diálogo e à colaboração nos planos da pastoral [13] (que eu saiba, este apelo não teve grande concretização prática, embora venha bem explícito na Lumen Gentium, 37). Mas a Pastoral insiste sobretudo na «superior orientação da Hierarquia», a que atribui especial intensidade: «Esta relação (hierárquica) é, no caso da Acção Católica, a mais densa e sólida que a Igreja conhece e utiliza para ordenar a cooperação entre laicado e Hierarquia, nas tarefas comuns da evangelização» (op. cit., n.º 9) [14]. O «clericalismo invasor» é expressamente prevenido, mas percebemos que o que está em causa é o receio da «autonomia laical» [15]. É este um dos aspectos que fica mais ambíguo, porque, já o vimos, fora acordado nos Princípios que a superior orientação da Hierarquia (essencial à Acção Católica) se exerceria, na futura A.C.P., em matérias e por formas delimitadas com grande precisão (cf. I-16).

4º) O ponto 10 da Pastoral começa (mas sem o dizer) tal qual o artigo inicial dos Princípios (cf. I-1), só a redacção é ligeiramente diferente: «À Acção Católica tem por finalidade imediata o fim apostólico da Igreja». E cita, à mesma, o artigo essencial do decreto conciliar sobre o apostolado dos leigos (Apostolicam Actuositatem, 20). Mas só no parágrafo seguinte é que se refere explicitamente aos Princípios, pondo em relevo aquela das três dimensões do apostolado da Acção Católica que (assim fica a parecer) mais seria de temer que fosse descurada, e não a mais específica da condição laical: «Verificamos, com agrado, que a Acção Católica Portuguesa do presente, ao elaborar os princípios fundamentais que a hão-de reger no futuro, concedeu suficiente atenção e relevo à natureza religiosa do seu apostolado. Exortamo-la vivamente a manter-se fiel a esta perspectiva que tanto a dignifica e constituirá sempre o selo da sua autenticidade».

5º) No mesmo ponto e no seguinte é abordado um dos temas que mais devia preocupar o Episcopado: a animação cristã da ordem temporal (como se dizia, então, da sociedade civil). Há que reconhecer que a Pastoral trata este tema sensível trazendo contributos doutrinais convergentes com os Princípios, (sobretudo no seu capítulo III - Metodologia e Espiritualidade da Acção Católica). Mas, embora sem o infirmar, persiste em não relevar o que há de novo em relação às Bases de 1933. Que não é só questão metodológica, mas existencial, e vem logo à cabeça deste capítulo: «III-1. Presença na vida. O estilo dos Movimentos da A.C. caracteriza-se por uma atenção constante e profunda à vida concreta dos homens, numa perspectiva cristã. Isto implica: Uma presença comprometida dos seus militantes no meio; uma acção com todos os homens, cristãos ou não, participando com eles na promoção integral e colectiva desse meio». Sublinhamos as duas frases cruciais que significam uma mudança de orientação não sublinhada pela Pastoral. Ao cabo de trinta e muitos anos de prática apostólica, os Movimentos da A.C.P. não queriam mais ser os «Batalhões de Cristo Rei». A relação com os não cristãos do próprio meio deixara de ser a da conquista, mas a do testemunho evangélico num trabalho solidário de combate aos factores de alienação e opressão (materiais e espirituais, é claro) que impedem o «desenvolvimento do homem todo e de todos os homens» (cf. Populorum Progressio, ), e obstam à conversão cristã. Mas a Pastoral fiel ao antigo conceito advoga um apostolado vindo de fora, e não brotando de dentro, de um trabalho com as pessoas do meio, animado por pelo espírito cristão [16].

6º) Se entre as três dimensões de apostolado da Acção Católica, os Princípios dão relevo à «animação cristã da ordem temporal», que compete primordialmente aos leigos, a Pastoral parece reduzi-la à «formação das consciências», isto é, ao confronto das «realidades políticas contingentes com a luz eterna do Evangelho», como «preparação» dos militantes para «o empenhamento directo nas acções concretas» [17], e não como reflexão essencial para a tomada de posição e a acção dos Movimentos. É o ver e julgar, mas sem o agir - o agir que, neste domínio, é tarefa individual do militante, mas parece não ser missão também dos Movimentos. Por demais, a Pastoral insiste no campo político, quando os Princípios não o visam mais do que as demais esferas da vida social.


19. O fim da Acção Católica Portuguesa

As causas da queda vertical da A.C.P., por certo numerosas, serão talvez um dia elucidadas por quem tenha competência para tal, e acesso ás fontes de informação. Na responsabilidade que sinto de dar um testemunho sincero, aqui deixo estas pistas que tornam credível a hipótese atrás aventada e a seguir reformulada, para concluir.

A opinião prevalecente na Conferência Episcopal terá receado que a A.C.P., reorganizada a partir dos Princípios Básicos, e encabeçada por uma Equipa Nacional empenhada nessa metamorfose, e num apostolado visando a crítica e a transformação, não só dos indivíduos, mas das estruturas sociais, se tornasse um incómodo factor de disfunção, e levasse à ruptura as crescentes tensões na Igreja, e entre Igreja e Estado. As opções moderadoras que tomou, mesmo causando a desmotivação de muitos militantes dos mais activos, seriam então um mal menor.

Por seu turno, os leigos e os Assistentes mais entusiastas da actualização terão compreendido que o modelo decorrente dos Princípios Básicos, de uma federação de Movimentos trabalhando democraticamente, e assumindo as suas decisões e responsabilidades de intervenção na sociedade, não era aceite pelo Episcopado: que não era esta a forma desejada pela Hierarquia para a cooperação dos leigos no apostolado da Igreja, na convulsiva situação portuguesa de 1970. O Cónego António dos Santos acrescenta, com autoridade, estes factores de dissolução:
«Muitos militantes abandonaram os Movimentos. Uns, por cansaço, outros por não concordarem com as orientações dadas, outros por acharem que os movimentos eram pouco reivindicativos, não se comprometiam na vida, não assumiam posições concretas nos problemas da vida nacional.
Os Assistentes de base, na maioria párocos, deixaram de dar assistência aos grupos de militantes, desinteressavam-se da sua existência, e, nalguns casos, não aceitavam a A.C. (...)»
(op. cit., p. 41).

Mesmo quando, em 1972, os Princípios Básicos começaram a ser postos em prática, a nova Equipa Nacional estava possuída de uma apatia pessimista e funérea, traduzida no editorial do Boletim da A.C.P. (nº 406, ano 1972) - os sublinhados são nossos:
«(...) E que entendemos, que queremos concretamente fazer neste momento? A este respeito também o juízo dos outros e da Igreja toda, se nos não fecharmos no novo orgulho, é o elemento mais esclarecedor: que pensa a sociedade, a Igreja, da Acção Católica? Apercebe-se de que ainda existe? Com que obras lhe provamos que ainda existimos, se é que existimos?...» E noutro passo anuncia o óbito iminente: «Enquanto se não atacarem os problemas de fundo, força é reconhecer que a Acção Católica se encontra moribunda, privada que está hoje de qualquer atracção dinâmica para um laicado em crescimento evidente, dilacerada por divisões profundas que se atenuaram mas cujas causas permanecem, sofrendo com particular intensidade de uma crise de Igreja a que se referem as significativas palavras do Papa que neste número transcrevemos».

E se, nesses tristes anos, a Acção Católica se foi assim definhando, entre apatias, desinteresses e conflitos, não pode sobreviver ao tremendo choque social, às crises e transformações profundas que sucederam à revolução de 25 de Abril de 1974. Com efeito, em 1976, a Conferência Episcopal suspendeu a A.C.P., como estrutura unitária e integradora dos Movimentos, deixando ao critério destes a decisão de solicitarem ser ou não ser Acção Católica.

Foi uma nova época que se abriu, e ainda é cedo para ser avaliada. Alguns Movimentos pediram ao Episcopado a qualidade de Acção Católica e a aprovação de novos estatutos, e algumas Juntas Diocesanas ainda persistem. Segundo as novas tendências são, em geral, grupos coesos de pequena dimensão. O grandioso «exército de Cristo-Rei», combatendo na frente da «restauração cristã do indivíduo, da família e da sociedade», concebido e organizado em 1933, foi um sonho que passou. A Acção Católica do futuro será necessariamente diferente, se é que não prevalecerá antes o conceito mais amplo e flexível de Apostolado dos Leigos. E, de facto, no Portugal de hoje, são sobretudo Obras e Movimentos diversos, de espiritualidade ou apostolado, que mais florescem. Talvez seja esta a face do laicado na Igreja no século XXI.


20. Balanço sucinto da Acção Católica Portuguesa

É muito difícil fazer o balanço do enorme trabalho realizado pela Acção Católica Portuguesa. Numa síntese necessariamente provisória, destacarei alguns aspectos mais salientes.

O magnífico desígnio inicial nunca foi realizado na sua totalidade. Era manifestamente utópico, com suas ressonâncias de anacrónico espírito de Cruzada, que nunca foi integralmente assumido. E no entanto o ideal de leigos se devotarem a uma acção apostólica em íntima colaboração e sob a superior orientação da Hierarquia, galvanizou uma multidão de católicos, como nunca se vira no Portugal em processo de secularização da sociedade.

Desde o fim da Guerra, uma nova geração de militantes já fazia uma diferente leitura dos sinais dos tempos. A caminhada espiritual da Igreja, que culminou no Concílio, apontava para outro estilo de apostolado. A formação doutrinal, a vivência espiritual e a prática apostólica que a própria Acção Católica proporcionava é que levaram os militantes a substituir esse espírito de conquista por um ideal de presença no mundo, de solidariedade com os não crentes na transformação das mentalidades e da sociedade, de dentro e desde a base, e não imposta de fora e de cima.

Neste contexto, a organização complexa, rígida e burocrática das Bases Orgânicas de 1933 depressa se revelou uma construção teórica desajustada às novas espiritualidade e dinâmica apostólica. Mas quando o longo e reflectido trabalho de reestruturação se completou, as bruscas mudanças na sociedade portuguesa, as convulsões internas à Igreja e o aparecimento de novos modos e organismos de apostolado dos leigos, deram o golpe final na majestosa instituição.

Entretanto, a A.C.P. fizera uma obra extraordinária. Entusiasmou e dinamizou numerosos cristãos portugueses, na exigência de uma vida e de um testemunho segundo o Evangelho, formou-os não só no ensino teológico e social da Igreja, mas também na reflexão sobre a situação e os problemas da sociedade. Criou núcleos de solidariedade para com os que estavam material, espiritual ou socialmente humilhados e oprimidos. Afirmou uma presença cristã nunca antes conseguida pelo laicado, em muitas e variadas manifestações públicas, em reuniões concorridas e publicações difundidas, e sobretudo na vida quotidiana. Contribuiu decisivamente para uma mais profunda descoberta de Cristo e da espiritualidade cristã a uma multidão de crentes e não crentes, e para manifestar a doutrina evangélica e do Magistério da Igreja no seio de uma sociedade hostil, durante um regime político totalitário. Ao longo de quatro décadas de severas limitações dos direitos do homem, em particular do direito de associação, de informação e livre expressão do pensamento, permitiu que numerosos cristãos pudessem exercer esses direitos (embora com muitas vicissitudes), numa participação colectiva no apostolado da Igreja.

As dificuldades foram consideráveis, a desconfiança do Governo não deixou de crescer, e o Episcopado nunca quis correr riscos de perder as prerrogativas custosamente recuperadas pela Concordata - incluindo o direito de associação e publicação com fins religiosos, que permitiu organizar a própria Acção Católica. Mas, ao exercê-lo, nunca deixou de questionar a sociedade e a política e a cultura estabelecidas. Em verdade, pode dizer-se que A.C.P. representou mesmo a face da Igreja inconformada e intransigente quanto às injustiças do regime político e da vida social. Não foi a única associação cristã a afrontar as injustiças sociais e políticas, mas foi a mais influente e mais representativa da Igreja, na estreita cooperação dos cristãos leigos com os Assistentes Eclesiásticos e com os Bispos.

Os muitos militantes que devotaram com entusiasmo uma larga parte da sua vida à Acção Católica, e dela muito receberam, não estão por certo arrependidos. Alguns ainda permanecem em organizações católicas, outros estão activos em associações civis, sindicatos, meios de comunicação social, empresas, na administração pública, em partidos e órgãos políticos. Nenhuma outra escola formou e treinou tantas mulheres e tantos homens para as novas estruturas sociais democráticas emergentes do 25 de Abril. Esta foi uma tarefa que também a A.C.P. realizou (até pela prática de ela própria funcionar democraticamente nos seus últimos tempos). Não a cumpriu como objectivo principal, mas como imperativo de consciência e supletivamente, quando o regime político não permitia que outros movimentos o fizessem. Deste enorme trabalho é o País credor à Igreja.

A fórmula de uma organização constituída e dirigida por leigos ser mandatada para participar no apostolado hierárquico da Igreja, foi considerada providencial. No seu nobre objectivo de uma acção solidária no seio da Igreja pareceu viável e funcionou durante décadas. Mas, entendida de modo estrito, como foi em Portugal, escondia uma perigosa contradição. A ciência da organização ensina que uma associação colectiva tem de ter uma única linha de comando hierárquico. A Acção Católica era uma organização de leigos, tinha corpos deliberativos e directivos formados por leigos. Mas o Episcopado nunca renunciou à superior orientação, com controlo e poder de veto das decisões e documentos, sobretudo os destinados a projecção externa. Era esta, dizia-se, a sua forma de colaboração com o laicado, inerente ao seu poder doutrinal e pastoral - recebido de Cristo através dos Apóstolos - e que, em Portugal, nunca quis delegar nos leigos. Este facto (que significava uma contradição estrutural) criou um foco de tensão interna que, nos tempos revoltos do aggiornamento pós-conciliar, e com a correspondente valorização da condição laical na Igreja, se agravou ao ponto da rotura.

Seria uma ilusão sonhar com uma federação de Movimentos de apostolado leigo estruturado e funcionando democraticamente, e que ao mesmo tempo constituía um organismo oficial da Igreja, cuja orgânica interna é aristocrática, por essência e secular tradição histórica? Continuo a pensar que não. Mas era uma empresa arriscada e, na situação portuguesa de então, os riscos pagavam-se caros. Que o digam tantos que se arriscaram, O Bispo do Porto, os Padres Manuel Rocha e Abel Varzim, os Padres Felicidade e Nascimento, tantos militantes leigos e Assistentes Eclesiásticos. Mas a Acção Católica Portuguesa, ousou ter esse sonho, e pô-lo em prática, e correr esses riscos de mostrar uma face da Igreja Portuguesa intrépida e resistente contra as injustiças sociais e políticas, sem nunca descurar a tarefa de fundo que é a metanóia, a profunda conversão da mentalidade e do comportamento das pessoas. De resto, repito, tanto quanto eu saiba, a motivação essencial da A.C.P. nunca foi política mas apostólica cristã. Ao contrário de Itália, por exemplo, a A.C.P. nunca sofreu a tentação de instaurar uma democracia cristã.

O sonho que a actualização da Acção Católica acalentou era mais viável no regime democrático que hoje vigora em Portugal. Mas, por outro lado, esse mesmo regime atrai os cristãos para uma multiplicidade de instituições e tarefas da sociedade civil. E embora subsistam, em Portugal, injustiças e situações de miséria e opressão material e moral, não seria possível reorganizar um movimento apostólico com dezenas de milhar de militantes. O apostolado mantém plena exigência, mas há-de fazer-se, mais individual que colectivo, no âmago da própria sociedade, como o evangélico «fermento levedando a massa» - assim o propunham os Princípios Básicos de 1970.

A que vivemos foi talvez uma aventura quixotesca, votada à falência. Mas a semente foi lançada, germinou (até noutras árvores), deu frutos... Pela minha parte, não hesito em afirmar: valeu a pena, foi uma experiência magnífica- embora frustrante -, nesses tempos duros mas fascinantes, de muitos desafios, tempos de luta e de grandes esperanças. Deo gratias!

Lisboa, 24 de Junho de 1996



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[1] A composição deste grupo era a seguinte: Dr. Loureiro de Amorim (Presidente da Junta Diocesana de Braga), Eng. Jorge Jardim Gonçalves (Presidente da Junta Diocesana do Porto), Maria Palmira Lopes (Presidente da JOCF.), Maria Fernanda Morna (da Equipa Nacional LIC/F) e Eng. João Duarte Cunha (Presidente da Equipa Nacional da JUC), Dr. José Manuel Galvão Teles (pela Comissão de Actualização) e Eng. Sidónio Paes (pela Junta Central). Os delegados do Episcopado era presidida pelo Senhor Cardeal Patriarca de Lisboa e constituída pela Comissão Episcopal para o Apostolado dos Leigos. Quando o Senhor D. António Ribeiro foi eleito Presidente desta Comissão, passou a liderar o grupo episcopal de diálogo, desde meados de 1969 (cf. Boletim da A.C.P., nº 394, pp. 18 e 19, e nº 395, p. 42).

[2] Texto transcrito dos Votos e Conclusões do Conselho Plenário da Junta Central da A.C.P.( Ref.ª 282 / 68-69). Dentro da Igreja havia, aliás, uma facção conservadora que desconfiava do espírito da actualização. Um sinal dessa tendência foi o artigo de Galamba de Oliveira Acção Católica ou Partido Político, publicado no semanário A Voz de Domingo (nº 1859). Como Secretário Geral da Junta Central respondi rebatendo os argumentos expostos, numa carta que aquele semanário publicou, omitindo a introdução (cf. Boletim da A.C.P., nº 393, Janeiro a Março de 1969, pp. 12-17).

[3] Os Princípios Básicos estão publicados, juntamente com a Carta Pastoral do Episcopado que os promulgou, no Boletim da A. C. P. nº 402, de 1971.

[4] II. O Assistente da Acção Católica; III. Metodologia e espiritualidade da Acção católica; IV. Especialização e estrutura.

[5] Se o Padre Santos que muito prezo me permite um reparo, diria que, depois da aprovação dos Princípios Básicos, não se tratava, para os Movimentos tanto de «reencontrarem a sua identidade», mas de a afirmarem plenamente, pois que já a vinham antes progressivamente «encontrando», numa prática que deu forma aos Princípios Básicos.

[6] O novo Secretário Geral era António Sousa Franco, cristão irrepreensível, vocacionado para uma notável carreira pública e política, mas que não tinha pretígio na A.C.P., e não participara no processo de actualização. Como jurista mas era julgado pelo Episcopado capaz de regulamentar devidamente os Princípios Básicos. Mas, no termos processuais nestes prescritos, nunca seria um candidato elegível.

[7]
«Reunidos em Assembleia Plenária no santuário de Nossa Senhora de Fátima, os Bispos da metrópole sentem-se felizes por ver concluída a primeira fase desse meritório trabalho e, de bom grado, aprovam por um período experimental de cinco anos, os Princípios da A.C.P., renovada à luz do Concílio. Ao mesmo tempo, manifestam a esperança de que, em breve, seja alcançado o termo das fases posteriores de actualização, nomeadamente as relativas à elaboração de um Estatuto orgânico, comum aos vários Movimentos da A.C.P. e dos Regulamentos julgados necessários. Estes instrumentos jurídicos, tendo em conta os Princípios Básicos, agora aprovados, deverão jurídicos, tendo em conta os Princípios Básicos, agora aprovados, deverão garantir a indispensável unidade e a legítima autonomia dos Movimentos apostólicos que a integram.»

[8]
«Apraz-nos ainda reafirmar à Acção Católica a confiança que sempre nela temos depositado. Se consuderarmos o seu passado, também entre nós ela é credora de especial menção de apreço que o Concílio lhe fez, e, com justiça dela disseram os Bispos da Metrópole em 1966: "Lançada oficialmente em Portugal, na alvorada da renovação da vida religiosa do país, sob os auspícios da Virgem de fátima e precisamente quando a sua maternal mensagem começava a frutificar em graça e vida interior nas almas, ao denodado esforço dos pioneiros da Acção Católica e dos seus continuadores se deve, em grande parte, o admirável florescimento da vida cristã das nossas dioceses e paróquias. A ela se devem os passos decisivos para uma consciencialização apostólica do laicado, as primeiras iniciativas sérias, em plano nacional, para o incremento e a participação activa no culto litúrgico. Para a restauração e edificação da família, para a mentalização cristã dos diferentes meios sociais".»

[9] Cfr. Base I da A. C. P.: Guia da Acção Católica Portuguesa (União Gráfica, Lisboa, 1953), p. 3.

[10] Cf. Decreto Apostolicam Actuositatem, nº 20.

[11] Exorta assim à organização: «Deste modo, a Acção Católica, para ser fiel a si mesma, jamais descurará os aspectos organizativos essenciais, que não se reduzem a simples estruturas de quadros burocráticos, mas se concretizam em formas de associação orgânica, reflexo do dinamismo próprio da Igreja» (op. cit., nº 7). Mas recorda que há algo mais importante do que as estruturas: «A renovação da Acção Católica, como aliás da Igreja inteira, depende menos da mudança das estruturas do que da conversão interior dos corações. Renovar as estruturas, os métodos de trabalho e os programas de acção é mais fácil do que renovar os espíritos, tarefa esta sempre urgente e necessária para correspondermos ao apelo do Evangelho...» (op. cit., nº 13). Mas não confirma que os Princípios não esqueceram esse requisito básico.

[12] «Devem os sacerdotes estar à frente, de tal modo que, sem procurarem os próprios interesses mas os de Jesus Cristo, trabalhem na obra comum com os leigos e vivam no meio deles segundo o exemplo do Mestre que se pôs entre os homens, "não para ser servido, mas para servir e dar a vida pela redenção de muitos" (Mt. 20, 28). Os sacerdotes reconheçam e promovam sinceramente a dignidade e participação própria dos leigos na missão da Igreja. Estejam dispostos a ouvir os leigos, considerando fraternalmente os seus desejos, reconhecendo a experiência e competência deles nos diversos campos da actividade humana, para que juntamente com eles, possam reconhecer os sinais dos tempos. Sabendo discernir se os espíritos vêm de Deus, prescrutem com sentido de fé, reconheçam com alegria e promovam com diligência os multiformes carismas dos leigos, tanto os humildes como os sublimes. (...) Entreguem aos leigos, com confiança, encargos do serviço da Igreja, deixando-lhes espaço e liberdade de acção, convidando-os mesmo a oportunamente terem a iniciativa de empreendimentos. (Decreto Presbyterorum Ordinis, 10)» (cf. op. cit., nº 8; os sublinhados são nossos)

[13] «Bem gostaríamos que todos os pastores de almas pusessem em prática estas directivas conciliares [de novo do decreto conciliar sobre os sacerdotes, Presbyterorum Ordinis, 10] e, feitos irmãos entre irmãos, com os leigos estudassem e ponderassem os mais ajustados planos de acção pastoral a empreender conjuntamente, em benefício do Reino de Deus.» (op. cit., nº 8)

[14] E acrescenta: «Para a Acção Católica, aceitar a superior orientação da Hierarquia significa, entre outras coisas, aceitar a inserção explícita da própria actividade de apostolado num plano mais amplo, promovido por aqueles que Deus pôs à frente da Sua Igreja (Act. 20, 28), e estudar e harmonizar com eles os tempos, os modos e as formas de actuação, no âmbito da pastoral orgânica correspondente às exigências concretas de cada situação histórica. Esta superior orientação é consequência e sinal da intimidade vinculante que solidariza os leigos e os pastores, na profunda relação eclesial interna ao Povo de Deus e à sua presença no mundo. Ela opõe-se, por um lado, ao clericalismo invasor, e por outro, a formas ilusórias de autonomia dos laical» (op. cit., nº 9).

[15] «Esta superior orientação é consequência e sinal da intimidade vinculante que solidariza os leigos e os pastores, na profunda relação eclesial interna ao Povo de Deus e à sua presença no mundo. Ela opõe-se, por um lado, ao clericalismo invasor, e por outro a formas ilusórias de autonomia laical.» (op. cit., nº 10)

[16] Diz a Pastoral: «Queremo-la [a Acção Católica] muito presente e inserida na vida real humana. Mas sejam quais forem os problemas que afronta, jamais deixará de os ver sob o prisma religioso, isto é, na relação que directa ou indirectamente têm com a vocação e o destino sobrenatural dos homens. As questões económicas, sociais, sindicais, políticas e culturais não podem ser alheias à Acção Católica e aos seus militantes. Por elas passa o Reino de Deus, e é nelas que a fé sobrenatural e a graça de Cristo operam o milagre da restauração e divinização dos homens» (op. cit., 10). E mais adiante: «A condição laical dos militantes da Acção Católica e o estilo característico do seu método de trabalho justificam a tónica de encarnação posta na sua espiritualidade que "acolhe o mundo e os seus valores como expressão e exigência do amor de Deus, de Cristo e da Igreja".» (op. cit., 14)

[17] Sobre este aspecto tão sensível, a Carta Pastoral afirma, no nº 11:
«Fiel ao seu apostolado de formação das consciências e de animação cristã de toda a ordem temporal, a Acção Católica não deixará de confrontar as realidades políticas contingentes com a luz eterna do Evangelho e do Magistério da Igreja, preparando assim os seus militantes para o empenhamento directo nas acções concretas.»

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